Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

Como na canção

 

 

Certamente conhecem a canção do vídeo aqui em cima, e quase de certeza em versões de vários artistas.

 

É também quase certo que, sendo universalmente conhecida, não terão tido a paciência de a escutar mais uma vez. Possivelmente estarão também a matutar onde é que quero chegar. Ou talvez não. A divagação é o prato do dia mais frequente.

 

Se conseguirem aceder a uma repetição do nosso jogo de Guimarães, experimentem desligar o som da transmissão, assim, como assim, não se perde grande coisa, e ponham a música a tocar enquanto assistem ao que se vai desenrolando no relvado.

 

Esta é, para mim, a canção daquele jogo. Para além dos momentos de interrupção na partida (bolas fora, livres cantos…), só há outros três em que a música e o futebol se descolam: os nossos três primeiros golos.

 

É nessas alturas que o “softly” dá lugar ao “killing”, e o adversário leva a estocada, que não é final senão à terceira. Uma, duas, três vezes. O quarto golo já é mais um acrescento, daqueles para atrair a sorte, ou neste caso, aumentar o “goal average”.

 

“Killing me softly”. A nossa canção matou o Vitória. Mas matou-o lentamente, sem correrias avassaladoras ou precipitações. Como se o cozinhasse em lume brando, à maneira da sapateira, papel a que os vimaranenses aqui há tempos se prestaram, mas pela inversa: brancos por fora, vermelhos por dentro. E a caquinha na cabeça.

 

Numa abordagem menos culinária da coisa, e mais “national geographiquiana”, a nossa equipa e o seu futebol tricotado, de toque e posse, poderiam comparar-se a uma aranha, que tece a sua teia e espera até que nela se enrede a sua presa, para depois, calmamente, quando esta de tanto estrebuchar, acaba por tornar irremediável a sua sujeição, dar-lhe a espetadela final.

 

É este o futebol do nosso treinador. Diz ele que, "Demorou, mas a equipa está como quero".

 

No fundo, valha a verdade, o futebol que se viu nos últimos dois jogos, é o futebol que nos está no ADN desde os tempos de José Maria Pedroto, e que nem o André Villas Boas logrou conseguir replicar.

 

Vítor Pereira acrescentou-lhe a sua visão do que é o jogo, e a sua visão é extremamente egoísta, como aqueles miúdos dos tempos do futebol de rua, que que queriam a bola só para eles.

 

A lógica é essa, só joga quem tem a bola. Quem não a tem, anda a correr atrás dela, e desgasta-se. Do outro lado, é o tal repouso activo, com a bola controlada, de que falava Villas Boas, mas que não deu tempo a si próprio para implementar. As coisas correram-lhe demasiado bem, depressa demais.

 

Nestas duas ocasiões isso foi conseguido, e começa a tornar-se perfeitamente vulgar a bola estar do nosso lado em dois terços do tempo de jogo, tal a sucessão de encontros em que tal acontece.

 

Os golos eram o que faltava, e marcaram a grande diferença entre as partidas com o Gil Vicente e o Vitória de Guimarães, e outras que não passaram de um enorme bocejo. É esse o segredo: posse para quê?

 

Para marcar, obviamente. Lá atrás, deixei de propósito de fora o quarto golo, porque foi o único nascido de uma jogada de futebol jogado, digamos que normal.

 

 

Os dois primeiros de duas belas cabeçadas - o Mangala parecia o meu saudoso Hörst Hrubesch -, em lances de bola parada. O terceiro, com a linha avançada composta por Varela, Jackson Martinez e Lucho Gonzalez, numa resposta a um passe vertical do menos provável dos médios, o Fernando.

 

Foi isto que não aconteceu noutras ocasiões. Quando Vítor Pereira diz que demorou, mas finalmente a equipa está como ele quer, não é difícil de perceber.

 

O primeiro esboço daquilo que vimos nas duas últimas semanas, pareceu-me descortiná-lo nos 15-20 minutos iniciais da Supertaça Europeia, contra a equipa que é alma mater deste modelo de jogo, o Barça.

 

De então para cá, perdeu-se. Ou teve que ser reconstruído. É naturalmente mais difícil fazê-lo sem alguém que marque golos, como um Falcao, e tremendamente mais fácil quando se tem um Jackson Martinez, em vez de um Hulk a jogar a avançado-centro.

 

É mais fácil fazê-lo quando se têm jogadores que sabem trocar a bola e que não se inibem de fazê-lo, do que quando se tem jogadores que não percebem o que o treinador pretende deles em campo, como o empresário do Guarín chegou a afirmar.

 

É mais fácil quando há disponibilidade mental para o fazer, e quando a cabeça não está noutro sítio.

 

Tudo isso terá atrasado o produto final, mas agora, olhando para trás e vendo alguns dos jogadores que entretanto saíram, dá-me a ideia de que, independentemente da sua valia técnica, as coisas não foram feitas por mero acaso.

 

O Álvaro Pereira, o Guarín e até mesmo o Hulk, têm um futebol mais físico e à base de repelões, que em estilo de jogo os aproxima mais daquele que é o padrão de outras equipas, que do nosso actual.

 

O Sapunaru, o Fucile ou mesmo o Djalma, não são tecnicamente tão dotados como os nossos actuais laterais, logo não tão facilmente enquadráveis no tal futebol de posse e toque a que se queria chegar. E assim por diante.

 

A questão agora é outra. Demorámos a chegar a este ponto, convirá não ter pressa em sair dele. As contratações de Inverno parecem indiciar que é, de facto, para continuar.

 

Até o plano B, que sempre foi uma das minhas fixações, parece que vem a caminho através da exploração das dinâmicas que poderão existir entre o Liedson e o Jackson Martinez. Que mais se poderá exigir? Títulos, é claro. Vitórias. Só isso.

 

O Vítor Pereira, para quem por vezes não o compreende, como é o meu caso, vai-se desvendando. O “até que enfim” após o último jogo, foi revelador, e combinado com a música, fez-me lembrar um basquetebolista dos tempos de glória dos Detroit Pistons de Chuck Daly, o Joe Dumars.

 

  

Numa equipa de operários, onde a grande vedeta era o Isiah Thomas, o Joe Dumars era conhecido por “Silent Killer”. Pouco se via, mas nos momentos cruciais, ele estava lá.

 

Vou tentar lembrar-me desta associação de ideias na próxima vez que tiver dúvidas em relação ao nosso treinador. Eis que, para mim nasceu o Vítor “Silent Killer” Pereira.

sinto-me:
música: Killing me softly - Roberta Flack
publicado por Alex F às 13:18
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2 comentários:
De penta1975 a 4 de Fevereiro de 2013 às 23:38
« Do outro lado, é o tal repouso activo, com a bola controlada, de que falava Villas-Boas, mas que não deu tempo a si próprio para implementar »

o tal «repouso activo» que já acontecia com Mourinho :D

abr@ço
Miguel | Tomo II
De Alex F a 5 de Fevereiro de 2013 às 09:50
É verdade. O Mourinho foi o mestre nesse capítulo.

Abraço

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