Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

O Burro fora d’água

Desconheço a origem da expressão “dar com os burros na água”, mas sei perfeitamente o que significa. Significa que não se alcançou aquilo que se pretendia.

 
A propósito do Benfica – FC Porto, ouvi comentários que sublinhavam a diferença de atitude entre os treinadores dos dois clubes. Jorge Jesus esteve o tempo todo à chuva. E, como quem anda à chuva, molha-se, apanhou uma valente molha.
 
Jesualdo Ferreira, pelo seu lado, pouco ou nada terá saído do banco, e nem se teria molhado. Para se ganharem jogos não é preciso apanhar constipações, ainda para mais nestes tempos de gripes alfanuméricas. Por isso estas diferenças de comportamento para pouco mais servem do que para evidenciar o tipo de envolvimento emocional de cada um daqueles treinadores no jogo.
 
Jesualdo mais contido, mais cerebral e mais frio. Jorge Jesus, mais impulsivo e instintivo. Talvez tenha sido por aqui que o FC Porto, desta vez, começou a perder o jogo.
 
Quando vi a equipa inicial do FC Porto, e me apercebi que ia jogar o Guarín, no lugar do Belushi, e que o Varela ficava de fora, perdi grande parte da vontade de ver o jogo. Não por causa do Guarín, coitado. Apesar de agora virem com as estatísticas dos jogos em que ele foi titular e o Porto perdeu (Chelsea, Marítimo…).
 
Faz-me espécie que o treinador do FC Porto precise de tempo para construir uma equipa, para afinar os processos, as transições rápidas, ou como se dizia até há pouco tempo, os automatismos, e depois, cada vez que vem um jogo mais complicado, tira o jogador que é titular nos jogos, teoricamente, mais fáceis e mete o Guarín.
 
Se não serve para os jogos fáceis, porque é que há-de servir para os difíceis? Para reforçar a capacidade defensiva do meio-campo? O próprio Guarín, quando cá chegou e quiseram fazer dele um dos putativos substitutos do Paulo Assunção, disse que aquela não era a sua posição. Que em França costumava jogar mais adiantado. Tudo bem que os jogadores devem estar preparados para jogar onde o treinador manda, mas a natureza de cada um é a natureza de cada um.
 
Portanto, não é por aí. Não se percebe esta opção do Jesualdo Ferreira. A não ser se, fazendo jus à sua maneira de ser, e sendo conhecedor, como o Mundo em geral, que o Benfica costuma entrar forte no jogo, tenha querido tentar segurar o primeiro embate, para mais tarde, como acabou por ter de fazer, mas em desespero de causa, lançar o Belushi. O que, naquele terreno…não parecia de todo recomendável, e é claro, deu com os burros na água.
 
A não inclusão do Varela na equipa inicial, é outra opção que não compreendo. O Silvestre Varela tem vindo a funcionar nos últimos jogos, como o revulsivo da equipa portista, e agora, com o Benfica fica de fora, porquê?
 
Vendo o alinhamento inicial das duas equipas percebe-se facilmente que o Jorge Jesus, por motivos de força maior, fez duas substituições directas de jogadores: o Aimar pelo Carlos Martins, e o Di Maria pelo Urretavizcaya (cruzes, canhoto, que nome!). De resto, retiradas as diferenças em termos da valia técnico-táctica individual destes dois jogadores em relação aos que não jogaram, tudo na mesma.
 
Como dizia um professor meu de Economia, na hipótese “ceteris paribus”.(1)
 
Assim foi o Benfica. Jorge Jesus não alterou um milímetro, em termos tácticos, a postura da sua equipa, o que lhe conferiu, desde logo, quanto a mim, alguma vantagem, nomeadamente no plano ofensivo.
 
Porquê? Por causa do Saviola. Com uma frente de ataque composta por Urreta, Cardozo e Saviola, os dois primeiros davam-se à marcação quer do Fucile, quer dos centrais do Porto. O Saviola, a jogar numa posição mais interior, e com as suas movimentações tanto para a linha, como para a retaguarda, era um previsível bico d’obra.
 
Como deslocar o Fernando para a marcação, destapava caminho ao Aimar (se jogasse), ou ao Carlos Martins, a alternativa era convencer o Álvaro Pereira a vir dar uma ajuda ao centro da defesa, acompanhando as movimentações do “Conejo”. Ora, sendo o Álvaro Pereira, um lateral sul-americano, esse não é um movimento que lhe é muito familiar. Se lhe pedirem para fazer o flanco todo, ainda vá que não vá. Agora vir marcar para dentro do terreno, tá bem, tá.
 
Logo, por aqui o FC Porto, estava já mal parado. Jesualdo, aparentemente, ao preterir o Varela, terá pretendido copiar este dispositivo ofensivo do Benfica. Ou seja, uma frente de ataque assimétrica, constituída pelo Cristián Rodriguez, junto à linha, à maneira do Urreta, pelo Falcao, ao centro, como o Cardozo, e o Hulk, em posição equivalente à do Saviola.
 
Acontece é que, para o César Peixoto, que até já tem uma valente rodagem, vir fazer a cobertura para o centro do terreno, não é um tão grande sacrifício (na volta, até agradecia), como para o Álvaro Pereira, e como do lado contrário não havia um médio organizador de jogo, até tinha o auxílio do trinco, quando o brasileiro se internava pelo centro do terreno.
 
Além disso, o Hulk está incrivelmente horrível esta temporada. Ao contrário do Saviola, que até pode não aparecer no jogo, mas, normalmente quando aparece, é decisivo, como se viu.
 
Quanto a mim, que não percebo nada disto, pareceu-me, à anteriori, e agora, ainda mais, à posteriori, que teria sido preferível o FC Porto abdicar do Falcao, e jogar com o Hulk a avançado de centro, mantendo o Rodriguez, e colocando o Varela na outra ala.
 
O Hulk, apesar de tudo, é menos estático que o Falcao, e, em princípio, deixava os centrais do Benfica sem uma referência para a marcação. Ou por outro lado, obrigava o Cachinhos Dourados a andar a correr atrás dele, para trás e para os lados.
 
Nas laterais, os dois defesas ficavam manietados pelos extremos portistas, e com o Belushi em campo (ou o Mariano, ou quem quer que fosse, que subisse no meio-campo, com mais a propósito que o Guarín), talvez desse para aproveitar algum espaço deixado vago pelo Javi Garcia, que ficava na trajectória das movimentações do “Incrível”.
 
Isto foi o que pensei antes do jogo, e um dos motivos do meu desânimo quando vi a equipa que ia jogar.
 
Jorge Jesus manteve a sua postura táctica, foi coerente com os princípios de jogo que escolheu para a sua equipa e teve sucesso.
 
O prof. Jesualdo modificou a equipa para adaptá-la ao adversário e deu com os burros na água. Não digo que tenha tido medo, mas teve um respeito exagerado pela equipa do Benfica. Um respeito que, diga-se, aquela ainda não merece.
 
Um respeito que, infelizmente, se pegou aos jogadores, como no lance do golo do Benfica, em que o Helton, com a jogada a decorrer, se foi inteirar do estado do adversário que estava caído quase dentro da sua baliza.
 
O Benfica não parou o jogo, e claro depois veio o golo. Nestes jogos, não há tempo para essas mariquices. Ainda para mais quando o adversário é o Maxi Pereira. Está caído, azar, logo se levanta. Não se esperam complacências do outro lado.
 
E foi por aqui que nasceu a derrota. O Jesualdo parece estar a conduzir as coisas para aquele estado em que estavam há uns anos atrás, em que o respeito e a deferência pelos adversários (para não dizer outra coisa!), faziam com o FC Porto se desse por derrotado logo que cruzava a ponte.   
 
Não foi pelo árbitro. Apesar de todas as asneiras feitas. É claro que na jogada que antecedeu o golo, o Urreta recebe a bola, claramente em fora-de-jogo.
 
É menos claro que a jogada entre o Hulk e o César Peixoto seja pénalti. Agora, de uma coisa tenho a certeza, a ser falta não é por nenhum encosto ou “chega p’ra lá” de braços ou ombro do jogador do Benfica, como os lampiões querem fazer passar.
 
O que se passa, passa-se junto ao relvado. É aí que tenho dúvidas se é efectivamente o benfiquista que toca a bola para fora, e se é, o que não me parece, se não toca antes o pé do Hulk, ou coloca o seu à frente, rasteirando-o.
 
Vi várias repetições do lance, e esta última hipótese parece-me plausível. Agora, na parte superior do corpo, não há, de facto, falta nenhuma.
 
Quanto às mãos na bola, a do Cardozo é quase imperceptível, e não me parece motivo para castigo máximo. A do Rodriguez, é bradar aos céus.
 
Ainda continuando com o Rodriguez. O lance em que dizem que devia ter sido expulso. Concordo que é um lance aparatoso, mas se experimentarmos vê-lo em tons menos rubros, vê-se que o jogador do FC Porto vai lançado em corrida, e aparece-lhe pela frente o armário do Javi Garcia, que ainda por cima, parece preparar-se para entrar ao lace de pé por cima.
 
O jogador portista fez por proteger-se, e que eu saiba não tentou aleijar o do Benfica, nem atingi-lo violentamente. Houve um embate, forte, é verdade, mas em corrida. Não me pareceu haver maldade, e por isso, acho que o amarelo foi bem mostrado. Como seria o vermelho, se o pénalti tivesse sido marcado.
 
Mas, como disse, não foi por aqui que o FC Porto perdeu o jogo, ao contrário do que deu a entender o prof. Jesualdo. Quanto a mim, verdadeiro motivo para queixa, que se vem repetindo ao longo de toda a época, e que talvez tenha contribuído para a opção inicial do treinador portista, é a complacência dos árbitros para com as faltas cometidas pelos benfiquistas nos primeiros minutos dos jogos.
 
Uma vez mais a parcialidade foi evidente. São faltas, faltinhas e faltonas. E o Jorge Jesus, esperto, sabe que é assim, e tem a sua estratégia de pressão alta montada (também) em função disso.
 
Quando os árbitros deixam, há que aproveitar.
 
Resumindo, apesar de noutras situações já o ter defendido (no jogo contra o Chelsea, em Stamford Bridge, por exemplo), o grande Burro, no meio disto tudo foi o treinador do FC Porto, o prof. Jesualdo Ferreira, a quem, um pouquinho de falta de respeito pela instituição Benfica, não fazia mal nenhum.
 
Do género daquela que abespinhou o Nuno “não-cuspas-no-prato-onde-comeste” Ribeiro, por exemplo.
 
Doutra forma, vai continuar a dar com os burros na água, ou como neste desafio, a mandá-los para a água. Eles que até são os menos culpados, e ele, sequinho, sequinho, como os rabinhos com fraldas Dodot.
 
Votos de Boas Festas para todos. Um Feliz Natal, e um Bom Ano Novo, se cá não voltar antes...
 

Nota: uma ideia parva da minha parte, e não só, e com alguma pena, por causa do Olhanense: que tal, agora em Janeiro, chamar de regresso às Antas, o Castro, que está a rodar em Olhão, para fazer o papel do Raúl Meireles, e pôr o Raúl Meireles a fazer de Lucho Gonzalez?
 
Será que o Raúl ainda não atingiu um estado de maioridade (futebolística), que lhe permita deixar de ser um “sidekick”, para passar a ser uma figura principal?
 
Além disso, preocupa-me a pouca utilização dada a jogadores como Farías, Valeri ou Prediger. O Farías, psicologicamente, já nem deve existir. Quanto aos outros dois, se em anos anteriores, os reforços demoravam algum impor-se, era compreensível, porque ainda que os colegas que jogavam não fossem muito melhores do que eles, a equipa funcionava.
 
Agora, nem isso, e dá-me a ideia que esta situação vai gerando algum mal-estar no plantel, porque, bem ou mal, são jogadores "seleccionáveis" pelo Pibe.
 
O Prediger, então, se é tão bom como diziam, merecia uma oportunidade. É que o Fernando faz o papel do Paulo Assunção, mas na construção de jogo é uma unidade a menos. Talvez fosse de estudar uma alternativa, para ver se aquele meio-campo carbura.
 
Nota2: Onde é que estão o alarido, e as faixas de campeão de Inverno, que no ano transacto fizeram questão de atribuir ao Benfica, do sobrinho da Lola Flores? Até já ouvi dizer que o Benfica tinha sido campeão de Inverno "ex-aequo", com o SC Braga. Espectacular!
 
Nota3: Ainda bem que o "steward", selvaticamente agredido pelo Sapunaru e pelo Hulk (bastava o Hulk, para ser uma agressão monstra!), segundo as notícias, já apresentou queixa do ocorrido às autoridades policiais. É que assim talvez se venha a saber, porque carga d'água é que o dito estava numa zona, que, em face dos regulamentos da Liga, lhe estava interdita. Se dependesse do Conselho de Justiça da Liga, o mais provável seria os jogadores do FC Porto serem castigados, e isso nunca se vir a saber. Ai, ai, o Benfica e os túneis, os túneis e o Benfica. Isto é mesmo de roedor!
 
Nota4: a música que escolhi inicialmente foi o “Looser”, do Beck. Fundamentalmente, com o pensamento no prof. Jesualdo Ferreira (e sem esquecer o José Gomes).
 

Mas como, tanto um como outro, até já ganharam umas coisas, optei por outra, mais a puxar ao sentimento.

 


1 Altera-se a variável que se quer estudar, partindo-se do pressuposto de que todas as demais mantêm o seu comportamento inalterado.

 

música: Porto Sentido - Rui Veloso
publicado por Alex F às 18:30
link do post | comentar | favorito
|

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Quando uma coisa é uma co...

. O acordo necessário e a n...

. No limiar da perfeição

. In memoriam

. FC Porto 2016/2017 - Take...

. A quimera táctica do FC P...

. No news is bad news, (som...

. Poker de candidatos

. A anormalidade normal

. Ser ou não ser, um apelo ...

.Facebook

.Let's tweet again!

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

.mais sobre mim

blogs SAPO

.subscrever feeds