Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Cuidado com o pica-miolos

Com certeza que existirão estudos científicos sobre o assunto, e longas dissertações cheias de conclusões brilhantes. Quanto a mim, limito-me a registar que deve haver um muito bom motivo para que, quando nos dizem para não fazermos algo, isso constitua o maior incentivo para que façamos precisamente o contrário.

 

Talvez seja por masoquismo. Ou audácia. Uma irresistível vontade de experimentar a vertigem do desconhecido. Será por mera irreverência, misturada com uma boa dose de inconsciência?

 

É como acontece com os miúdos, por exemplo. Podemos dizer-lhes mil vezes para não mexerem no aquecedor, quando está ligado. Assim que acabamos de o fazer, é certo e sabido que lá vão pôr o dedo. E depois queixam-se.

 

Mas, crianças são crianças. Eu, que até estou plenamente consciente de que devo evitar dar uma vista de olhos ao “Record”, e em particular à coluna do Domingos Amaral, antes de cada almoço familiar domingueiro, não consigo resistir a fazê-lo.

 

É mais forte do que eu. Perder uns minutos de vida a ler o que tal indivíduo escreve é assim como que um “rush” de adrenalina. É a minha versão actual de um desporto radical.

 

Aliás, acredito piamente que, para o próprio Domingos Amaral, passar para o papel aquilo que lhe sai da cabeça, é também uma espécie de “bungee jumping”. Um salto no vazio do abismo do ridículo, só que, por vezes, como na última crónica, sem “bungee”.

 

Sob o título de "O apagão" escreveu então o que se segue:

 

 

 

“From: Domingos Amaral

 

To: Pinto da Costa

 

Caro Pinto da Costa

 

Ainda bem que o senhor se divertiu com o “apagão” na Luz. Eu também. Ao contrário dos indignadinhos, benfiquistas ou não, considero o “apagão” a melhor ideia de que o Benfica se podia ter lembrado. E explico porquê:

 

1 – No bélico presente, a postura de superioridade moral pacifista é tonta. O Benfica não é o Ghandi. Tão-pouco deve defender um apaziguamento “à la Chamberlain”. Prefiro a fibra de Churchill e sofisticados contra-ataques de “marketing de guerrilha”. Quando o “speaker” do seu estádio no Freixo grita aos microfones “SLB, filhos da p..., SLB”; quando o nosso autocarro é fustigado à pedrada; e quando o senhor chama “palhaço” ao nosso vice-presidente; a melhor resposta é um inovador “apagão”. Sem violência ou insultos, limitámo-nos a surripiar a luz à sua festarola, um ato perversamente pacífico. Palhaços e filhos da p...? Sim, mas geniais.

 

2 – Desligando a luz na Luz, entrámos para a história. Tal como para si o último dos campeonatos é o “dos túneis”, este será o do “apagão”. Daqui a 30 anos, ninguém se vai lembrar dos “mind games” do Villas-Boas ou dos golitos do Hulk. Mas todos, até os portistas, recordarão o nosso “apagão”! Será o que, à lareira, os avós contarão aos netos. “Naquele ano, o Benfica apagou a luz à festa do Porto...” Parabéns, pois, ao autor da ideia.

 

3 – Por fim, o “apagão” é a suprema metáfora desta época. O senhor é campeão pois, coisa rara, Benfica, Sporting e Braga sofreram um “apagão” simultâneo no início do campeonato e nunca recuperaram.

 

PS: Para a Taça, proponho que os benfiquistas mostrem 60 mil rabos ao léu ao FC Porto. Contra o dragão, depois do “apagão”, o “rabão”! Diga lá se não era uma galhofa?”

 

Depois de ler isto, dei por mim a pensar: “mas, este tipo tem estado no planeta Terra, nos últimos tempos?”

 

Surripiaram luz à festarola do FC Porto, na Cesta do Pão? “Naquele ano, o [sei lá quantos] apagou a luz à festa do Porto…”?

 

Vi e revi dúzias de imagens da festa que os jogadores do FC Porto fizeram em pleno relvado, sem luz e apesar de os aspersores estarem a funcionar. Até ajudaram aos festejos!

 

 

 

Meu caro Domingos Amaral, se tiver dúvidas, é só ir ao “Google”, escrever “apagão «espaço» luz”, e seleccionar imagens ou vídeos. Não é preciso mais. É bem capaz é de não gostar do que por lá vai encontrar.

 

Surripiaram luz à festa? Queriam vocês…

 

As únicas coisas em que acertou é que o campeonato anterior foi, efectivamente, o dos túneis, assim como este, será recordado como o do “apagão”.

 

E não só. Vai ser também recordado como o campeonato do bom comportamento de um certo treinador, das pedradas, das bolas de golfe, dos frangos do Roberto. Enfim, um sem número de ocorrências que, obviamente, não vão superar o “apagão”, mas que conjuntamente com ele vão deixar a sua marca perene nesta Liga Zon Sagres.

 

Pela minha parte, espero que este campeonato venha a ser recordado por ter sido conquistado sem conhecer o travo da derrota, igualando mais um recorde da concorrência.

 

Outra coisa que, quanto a mim, também é um dado adquirido, é que o que este tipo diz, será de certeza absoluta, convergente com a opinião de muitos outros companheiros de frustração.

 

É natural que se dêem os parabéns ao autor de tal façanha, e que se o considere ” a melhor ideia de que (…) se podia ter lembrado”, elevando-a ao patamar da “genialidade”.

 

É normal, quando se goza de uma tal impunidade, que faz com que os actos mais tresloucados se assemelhem a brincadeiras de crianças. Quando se incita à violência em directo ou se deseja, sem grandes pruridos, ou se deseja, sem grandes pruridos, a morte de um presidente de outro clube.

 

É perfeitamente natural que se o faça, revelando uma inconsciência que atinge as baias do impensável, quando é a própria polícia que traz à colação as questões de segurança, que a “ideia genial” poderia ter posto em causa.

 

Diz a sabedoria popular que “ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo”, por isso, nada disto é susceptível de causar estranheza.

Basta ver o manso castigo que mereceu o desportivismo do seu treinador, e que, ainda assim, e apesar do que todos viram, Conselho de Disciplina da Liga Portuguesas de Futebol incluído, teve direito a críticas por exagerado.

 

O texto é bem ilustrativo de um outro traço de carácter dos adeptos de um tal clube.

 

Aqui há coisa de um ano e picos, o mesmo autor, no mesmo sítio, escrevia isto:

 

“Apito Encarnado

 

From: Domingos Amaral

 

To: Luís Filipe Vieira

 

Caro presidente,

 

Uma das coisas que não lhe saiu bem no passado foi ter-se colado demasiado à investigação do famoso mas quase estéril "Apito Dourado". Deu a ideia, demasiado óbvia, de que o Benfica era parte extremamente interessada, em especial no que toca a Pinto da Costa. Parecia que queríamos, à força, pressionar o Ministério Público e os tribunais para conseguir condenações, de forma a limitar a ação do presidente do FC Porto e o prejudicar na gestão do seu clube. Ora, é preciso ser mais manhoso do que isso, pois essa colagem soa sempre a fraqueza e frustração. Aquela coisa do querer ganhar na secretaria porque não se consegue ganhar no campo é acusação sempre chata de ouvir, e além disso parece passatempo de fracos e derrotados.

 

Foi, aliás, a isso que me soaram as queixinhas de Pinto da Costa esta semana, quando ele pediu ao poder político que "intervenha" e que realize um "apito encarnado". Soou a fraqueza, a pressão, a frustração, e nem mesmo a conhecida ironia do senhor aliviou essa sensação.

 

Porém, não deixa de me dar uma alegria ver o presidente de um clube rival a resmungar, carpindo mágoas no seu muro das lamentações. É sempre assim em futebol: quem está por baixo berra, quem está por cima ganha e passa à frente. E, é isso o fundamental, este ano o Benfica está por cima, derrotou o FC Porto e vai muito bem. Não vale a pena, pois, o senhor responder-lhe, nem indignar-se com as suas "pressões". Há que continuar a trabalhar bem, a ganhar jogos, e deixá-lo a berrar sozinho. Essa foi a nossa sina durante anos, mas agora os tempos mudaram. Ele que proteste e que tente ganhar na secretaria o que não conseguiu ganhar no campo”.

 

Como se vê, quando estão por cima é ganhar e passar à frente. Quem está por baixo que berre.

 

Quando as coisas não correm pelo melhor, que se lixe a superioridade moral, é aproveitar todos e quaisquer argumentos para justificar os “sofisticados contra-ataques de marketing de guerrilha”. Serve de tudo: o speaker que insulta, o vice-presidente que é chamado de palhaço, como se isso não fosse antes um insulto aos próprios palhaços. Tudo é justificação para mais uma dose bem servida de vitimização.

 

Quase que faz lembrar um certo Primeiro-Ministro de um País cheio de cor, à beira do ir ao fundo, que, por mero acaso, certamente, até é, por sinal, adepto desse mesmo clube.

 

A propósito de naufrágios, passemos à parte do pica-miolos. Após um desastre marítimo, um sobrevivente vai ter a uma ilha, quase deserta. Quando lá chega, vem ter consigo um outro náufrago solitário e carente, que já lá residia, e dá-lhe as boas vindas, fazendo as honras da casa:

 

 “É pá, aqui tá-se bem! Há peixe no mar, há frutas tropicais na floresta, há água no ribeiro, não faz frio, nem de dia nem de noite. Se não fosse o pica-miolos, era um autêntico Paraíso!”

 

“Pica-miolos!?”

 

“Sim. É um pássaro, de uma espécie rara, que se alimenta de miolos. Quando ele vem, o melhor que fazes é esconder imediatamente a cabeça!”

 

“Ok.”

 

Um belo dia, estavam ambos nus deitados na praia, após uma bela banhoca no oceano, quando o náufrago mais antigo desata a gritar: “Pica-miolos, pica-miolos, vem aí o pica-miolos!”

 

O outro não faz mais nada, enfia a cabeça na areia. Quando começa a sentir qualquer coisa a “picá-lo”, noutro sítio, que não nos miolos, exclama:

 

“Aí, pica à vontade, que até chegares aos miolos, ainda tens muito que picar!”

 

Por isso, meu digníssimo Domingos Amaral, não sei se a ideia da “rabão” será assim tão genial. Cuidado não apareça por lá o “pica-miolos” para estragar a festa.




Nota1: Depois de tantos anos a ouvir cantar: “Pinto da Costa, Pinto da Costa, vira o cú p’rá gente…”, quem me haveria de dizer que ainda iria ver um benfiquista sugerir que fossem os seus confrades a virar o cú para o Pinto da Costa? Irónico!

 

Nota2: Um aviso aos jogadores do FC Porto para o próximo dia 20. Se esta ideia do “rabão” for para a frente, e apesar de o jogo se disputar às 20.30h, o melhor é levarem óculos de sol. Por muito pouca luz que os dirigentes do clube da casa acendam, o brilho que ela fará ao incidir em 60.000 rabos ao léu, deve encadear qualquer um…

 

Nota3: É claro que, se o árbitro for, como se espera, o João, “pode ser o” João [Ferreira], não será o brilho de 60.000 rabos que o irá ofuscar.

 

Nota4: Aqui d’El Rei, aqui d’El Rei! De acordo com o comunicado da Liga de Clubes, o João, “pode ser o” João [Ferreira], vai estar “indisponível” entre 18 e 22 de Abril.

E agora? Será que a “indisponibilidade” só vale para a Liga, ou também conta para a Federação?

 

Sem o João, “pode ser o” João, quem é que poderá ser para a meia-final da Taça de Portugal, no dia 20? O Olegário? O Proença? Aqui d’El Rei!

 

Nota5: Entretanto, segundo fonte hiper-credível, o “Correio da Manhã”, não se querem dragões nas bancadas no dia 20. Será por timidez? Ou medo que os dragões também se dediquem a picar miolos?

 

 

sinto-me:
música: Don't be afraid of the dark - Robert Cray
publicado por Alex F às 13:21
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