Domingo, 27 de Maio de 2012

27 de Maio de 1987

Há 25 anos atrás, nesta data, o ano lectivo estava a terminar. O 11.º ano não tinha corrido mal. Bem melhor que o 10.º, que fora um ano de transição. De escola, de ciclo de estudos, etc.…

 

A matemática continuava a ser o calcanhar de Aquiles. A Bobona Dentuça não dava tréguas, e os testes que fazia eram só para os crânios da turma. As explicações do Mestre Caniço ajudavam a desenrascar, mas a coisa permanecia colada a cuspo.

 

Éramos dois portistas na turma, eu e o João Paulo, e na outra turma de Contabilidade, havia o Nuno. Esta é que era uma grande inovação em relação ao Liceu e ao ciclo preparatório.

 

Porém, não haviam grandes discussões futebolísticas. O Nuno arrasava tudo e todos na turma dele, eu fazia a minha parte na minha. No fundo, quando o assunto era futebol, a dada altura a discussão descambava invariavelmente, para a gozação dos benfiquistas e sportinguistas, e o assunto morria por ali.

 

Só o Jorge, sportinguista e ceifado estupidamente tão cedo desta vida, é que tentava manter a coisa num plano de alguma seriedade. Ninguém o levava a sério, claro está.

 

O Carlinhos, outro sportinguista, e o Serginho Máfino, benfiquista e leitor andante do papel para forrar fundos de gaiolas de periquitos até aos dias de hoje, discutiam entre eles, e normalmente, a coisa acabava com a mochila do Sérgio, nos costados do Carlinhos, e mais um ataque de asma deste último.

 

Na realidade, o que o pessoal gostava era de acção. Era de jogar futebol e basquete, e às vezes vólei, porque haviam umas quantas miúdas giras que davam uns toques, e não de ficar a discutir o assunto.

 

Ser portista no Algarve já não era tanto, ser visto como uma aberração, agora era mais uma excentricidade.

 

Contudo, tinha vantagens. E essas vantagens eram acrescidas quando se tinha, como eu, um pai que na altura trabalhava na TAP.

 

Trabalhar na TAP, entre outras benesses, significava ter contacto com colegas em Lisboa e no Porto. Ora, por aqueles dias, para um colega no Porto, saber que algures no Algarve, havia um colega que tinha um puto que era portista (“doente”, segundo a douta opinião do meu progenitor), devia ser um fartote.

 

Então, de vez em quando, lá vinha qualquer coisa alusiva ao FC Porto. Ele eram galhardetes, pisa-papéis, bilhetes de jogos antigos, enfim, uma parafernália de peças de merchandising, como agora se diz.

 

Vai daí, ainda me estava a refazer da emoção da conquista da Taça dos Campeões, e da maravilha daquele toque de calcanhar do Madjer, quando, no dia seguinte pela hora do almoço, o meu pai entra em casa com uma folha de papel na mão.

 

A folha é a que abaixo se reproduz, e o que contém são as assinaturas dos heróis de Viena, jogadores e equipa técnica, recolhidas no avião que fez a viagem de regresso. Algumas são perfeitamente identificáveis, outras, até hoje não sei de quem são.

 

  

Infelizmente, para mim, não é o original. Esse estará certamente na posse de algum dos ex-colegas do meu pai, provavelmente algum dos Dragões da TAP, e terá um valor incalculável. Esta, é uma mera reprodução, recebida via fax, e mal tratada pelo tempo, logo o valor que tem é apenas sentimental.

 

Ainda assim, não é pouco, e por isso decidi aqui reproduzi-la.

 

Quanto ao colega do meu pai nunca tive oportunidade de lhe agradecer, nem sequer lhe fixei o nome, por isso, queria aqui deixar-lhe expresso o meu agradecimento por esta e por todas as outras peças que me enviou, e dizer-lhe que o puto algarvio portista, doente ou não, continua e continuará portista.

 

Um quarto de século depois, (como o tempo voa!) fica assim feita a minha singela homenagem aos heróis de Viena, pela mão dos próprios. 

 

Somos Porto, Somos Campeões!

Somos Campeões, Somos Porto!

sinto-me:
música: Filhos do Dragão - Super Dragões
publicado por Alex F às 00:01
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4 comentários:
De penta1975 a 27 de Maio de 2012 às 00:33
o mínimo que posso escrever é:
parabéns!
(por tudo e por todo o sentimento expresso no post)

abr@ço
Miguel | Tomo II (http://tomoii.blogspot.com/)
De Alex F a 27 de Maio de 2012 às 00:59
Obrigado Miguel,

...mas hoje, de Parabéns estão aqueles malucos que em 87, deram a volta ao Bayern.

Mal sabiam eles, e nós, a volta que estavam a dar ao futebol neste País.
De Donnie Darko a 28 de Maio de 2012 às 13:41
Boas

Sai da escola.
Cheguei a casa.
Pedi dinheiro ao meu pai para comprar uma cassete de vídeo.
“Não vai valer a pena gravar. Vamos levar poucas..” disse-me ele.
5 minutos antes já o velho VHS recolhia as imagens do Prater.
1-0.
Aguenta.
Não consegui.
Fui dar um passeio de bicicleta esperando que quando chegasse o resultado já teria mudado.
Quando cheguei ainda se mantinha.
Ainda bem.
Consegui ver “a jogada” do Futre, “o calcanhar” de Madjer e “o golo” de Juary.
Tinha 10 anos.
Já estava “doente”
“então sempre gravaste?” perguntou o meu pai...
Ainda tenho a cassete.
Está guardada religiosamente com o número 1 na minha colecção.
Nos dias seguintes revi mais de 100 vezes os últimos 15 minutos.
A minha esposa ficou assustada quando ontem ao ver a repetição do Porto Canal descobriu que tenho na cabeça o relato de 1987 da RTP:
“A velha história da água mole em pedra dura que tanto bate mas que desta vez não fura... mas vamos lá ver agora... Frasco.... Juary..... é o golo..... pode ser o golo....... e é....” 1-1
“Aí está Madjer a aproveitar nova desatenção da turma do Bayern de Munique para conseguir entrar na área...... o centro....... e é o golo...”
2-1
25 anos depois ainda arrepia...

Abraços
De Alex F a 28 de Maio de 2012 às 23:06
Boas noites,

Cada vez mais admiro as pessoas que conseguem reter pormenores em situações como...umas final da Taça dos Campeões.

Eu não consigo. Durante este jogo então, a ansiedade era tal, que não me consigo lembrar de quase nada. E depois do jogo, como que fiquei catatónico. Deu-me uma tal amnésia, que aquilo que sei do que se passou, é porque entretanto fui vendo repetições.

É uma sensação esquisita. Vi o jogo, mas é quase como se não o tivesse visto. Que desperdício!

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