Terça-feira, 12 de Junho de 2012

Comichões e comissões

Ao contrário do que o título possa sugerir aos mais atentos, o texto que se segue tem muito pouco, ou rigorosamente nada, a ver com o insigne ex-comentador António-Pedro Vasconcellos.

 

O Futebol Finance, fez recentemente uma análise das contas ds três grandes do nosso futebol, reportadas ao terceiro trimestre de 2011/2012, de acordo com o quadro de seguida apresentado.

 

 

 

Como se trata de um exercício quase exclusivamente descritivo, vou tentar complementá-lo com as conclusões resumidas sobre as mesmas contas, que encontrei no blog Mística Azul e Branca:

 

“Se analisarmos as Contas apenas referentes aquele período, podemos classificá-las em poucas palavras. As do Benfica são razoáveis; as nossas más; as do Sporting péssimas. Se as “juntarmos às que vem detrás”, minha nossa senhora! As nossas são más, as da “instituição” péssimas, e as do Sporting, um descalabro. Acresce o facto de os 3.os trimestres, no caso particular do futebol, terem dificuldades sazonais (decrescem as receitas, os custos são os mesmos, e não há transferências), o que constitui sempre uma boa desculpa para os responsáveis. O 4º trimestre costuma ser bom. As vendas dos “activos” (Valentim Loureiro chamava-lhes “mercadoria”) são feitas depois da época terminar, a tempo de ainda entrarem no Relatório Anual, o que disfarça a situação”.

 

Vistas as coisas da maneira linear, mas correctíssima, como são colocadas, confesso que me senti apoquentado pelos efeitos desconfortáveis de um surto comichoso.

 

Sem ligar muito aos outros, que com o mal deles, podemos nós bem, os 22 milhões de resultado líquido negativo, ainda que susceptíveis de virem a ser recompostos no final da época, fizeram soar a sineta de aviso.

 

Tive que ir dar uma vista de olhos ao nosso relatório. Dispensando aqueles pormenores enfadonhos de contas para aqui, contas para ali, custos, proveitos e etc., reparei contudo, em alguns pequenos nadas que reputo, no mínimo, de interessantes.

 

A (re)venda de 22,5% do passe do João Moutinho, ao Soccer Invest Fund (pág. 14), gerou uma menos-valia de 2.096.000 euros.

 

Os encargos adicionais das aquisições dos passes do Danilo, do Alex Sandro, do Defour, do Mangala e do Kléber, ascenderam a 9.074.870 euros, assim discriminados (pág. 43):

 

Danilo – 4.839.131 €;

Alex Sandro – 700.000 €;

Defour – 1.850.339 €;

Mangala – 1.020.000 €;

Kléber – 665.400 €.

 

Os serviços de intermediação e encargos com a assinatura de contratos, nas renovações do Falcao e do Álvaro Pereira, somaram 7.558.704 € (6.585.150€ + 973.554 € - pág. 44).

 

A intermediação das transferências do mesmo Falcao e dos jogadores que saíram no defeso de 2010 (Raúl Meireles, Bruno Alves, Nuno André Coelho, e venda de parte do passe do James Rodriguez), ainda imputadas ao período do exercício contemplado no relatório, totalizaram 7.205.000 € (pág. 45), dos quais, mais de metade, (3.705.000 €) apenas relacionados com o Falcao.

 

Tudo somado, perfaz, salvo erro, porque, contando com os dos pés, só possuo vinte dedos, a bonita maquia de 25.934.574 €.

 

Por outras palavras, um valor ainda assim, superior ao prejuízo dos 22 milhões. Atenção, não infiram daqui que estou a tentar enviesar as coisas para tentar associar directamente as menos-valias e os custos com serviços de intermediação e assinaturas de contratos ao valor negativo das contas.

 

Estes custos são o preço a pagar, fundamentalmente, para podermos ver nas nossas fileiras jogadores de craveira, supostamente, acima da média e dignos de envergarem a nossa camisola. Às vezes falha, mas isso é a vida.

 

No entanto, nem assim fico inteiramente tranquilo. Ainda há um certo pruridozinho que persiste.

 

Porquê? Porque, por exemplo, aqui há não muito tempo, a comunicação social fez questão de, comme il faut, colocar em destaque as transferências do Walter e do Hulk, para o nosso clube, e a sua passagem fantasma pelo clube Rentistas, do Uruguai, sob a influência de Juan Figer.

 

 

 

É claro que, naquilo que nos toca(va), como é hábito, foi mais o fumo que o fogo, porque afinal, quem estava sobre os holofotes da UEFA, era aquele empresário, e não eram aquelas duas transferências que estavam em causa, sendo apenas duas entre várias. Nada a que não estejamos habituados.

 

Para completar o cenário dantesco em redor da figura do empresário, o Correio da Manhã, acrescentou ainda que o Sporting, qual paladino das boas práticas e da lisura neste capítulo, recusara pagar três milhões de comissões a Figer, perdendo assim as hipóteses de contratar os jogadores Alex Silva e Bobô.

 

Logo os leões, quem com ele, nos finais da década de 80, ao tempo da gerência de Jorge Gonçalves, deram início às negociatas com aquele empresário no nosso País, dotando em vão os felinos de garras como Douglas, Eskilsson, Silas, Ricardo Rocha e Rodolfo Rodríguez.

 

Note-se que não estou a defender Figer, ou que se promovam negócios com tais elementos, e logo, também não subscrevo o pagamento de chorudas comissões a figurões de tal estirpe, mas uma coisa é certa, não há aldrabões melhores que os outros.

 

Entre Juans Figers, Kias Joorabchians ou Pinas Zahavis, ou porque não, Jorge Mendes, venha o diabo e escolha.

 

Trago aqui este assunto à colação única e exclusivamente, porque, bem vistas as coisas, uma instituição capaz de satisfazer os seus compromissos, e ainda gerar verbas na ordem dos 25 milhões de euros, para gastar em menos-valias, comissões e serviços de intermediação, não pode ser motivo para excessivas preocupações.

 

Há alguém a meter algum ao bolso? É possível, é provável e é natural. O clube tem ou não tem obtido resultados? Rest my case!

 

Aqui chegados, estarão talvez a pensar: ”Como é que é possível este tipo chegar à conclusão, de que, talvez, e friso com muito enfâse o “talvez”, haja dinheiro mal empregue no clube, sem ser acometido de uma urticária, que faça uma infecção urinária parecer um duche retemperador num dia de Verão do Algarve?”

 

Há ainda um outro factor que contribui para a minha tranquilidade, também ele plasmado no relatório que deu origem a isto tudo.

 

Pelo que li, ainda recentemente (Novembro do ano transacto), a posição accionista detida na SAD pela Chamartin Inmobiliária (18,79% dos direitos de votos), foi adquirida pelas Somague Imobiliária, Somague Engenharia e Somague Gestão e Serviços, S.A., todas elas pertença da Inmobiliária Sacyr Vallehermoso, S.A.

 

A Somague, por sua vez, é detentora de uma posição na concorrência de 3,65 %, portanto, nada de muito estranho o investimento no sector.

 

A questão aqui é que a entrada da Somague, ainda que posteriormente reforçada, deu-se por contrapartida da conversão da(s) dívida(s) resultante(s) da construção do Estádio da Lucy, que, ao que parece, irá brevemente voltar a Cesta do Pão.

 

Portanto, não se terá tratado inicialmente de uma opção empresarial, mas de um mal menor, dada a volubilidade de tudo o resto.

 

Ao passo que, a tomada de posição na nossa SAD, parece ser uma opção consciente, de uma empresa que visa objectivamente a obtenção do lucro. Ou seja, em sentido lato, um investimento.

 

A não ser que eu esteja a ser demasiado optimista, e o objectivo da Somague/Sacyr, passe por uma lógica em relação ao clube de “quanto pior, melhor”, que lhe possibilite, dando as coisas eventualmente e verdadeiramente, para o torto, tornar-se, não obstante a sua posição minoritária na nossa SAD, feliz proprietária de dois estádios de futebol.

 

Será? Custa-me a crer. O que é certo, é que esta reflexão produziu um efeito amenizador mais eficaz que o do Pruriced (passe a publicidade), e vamos em frente. Até ao próximo relatório, já com os lucros das vendas que se adivinham.

 


 

Nota: Versão do texto após revisão às 23:00, de 2012.06.12.

sinto-me:
música: Hurts so good - John Cougar Mellencamp
publicado por Alex F às 18:23
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