Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

A perfeição é o limite

Isto não se faz. Desde ontem que sou constantemente alvo de provocações por parte de colegas, mormente daqueles que são adeptos de um clube muito grande, muito grande, que obteve este fim-de-semana mais um golo num lance de fora-de-jogo, de que pouco se fala, justificando-se assim, tanto a parte do mor, como do mente.

 

Então não é que uma série destes sacanas me vieram dar os parabéns pela vitória do FC Porto?

 

Parabéns porquê?! Perguntei eu, surpreendido.

 

Parabéns porquê, num jogo contra uma equipa que terá tido tanto tempo de descanso após a partida para a Liga Europa, como o Estoril, com quem empatámos?

 

Porquê, se os golos do FC Porto, todos eles sem excepção são indignos de ter visto a luz do dia, tal a casualidade com que surgiram?

 

Sim, porque não houve naquele raio daquele jogo, uma única porra de um golo de que se possa dizer: "Benza-te Deus!"

 

Querem que festeje aquela vitória, com aqueles golos?

 

O primeiro nasce de um atropelamento fatal do Jackson ao defesa vilacondense, ou vice-versa, que não percebi muito bem. A bola sobre para o Tello, e este, com as lacunas que lhe são sobejamente reconhecidas e apontadas no momento da decisão dos lances, marca.

 

Não sei o que é mais fortuito, se a origem do lance, se o seu epílogo.

 

No segundo golo, o Tello, a trancas e barrancas recupera a bola, dá para o Jackson, que em vez de lhe reciprocar o passe, vai por ali fora, e feito um autêntico Quaresma contra o Athletic, remata e marca.

 

O terceiro é a suprema heresia. Como se não bastasse  a insistência individual do Alex Sandro, ainda tem o desplante de virar as costas ao lance, para o defesa do Rio Ave chutar contra si, e a bola só parar no fundo das redes.

 

Como dizia o Jesualdo Ferreira, "só os cagões é que viram as costas à bola". Mas este tem desculpa: o adversário é que rematou contra ele.

 

No quarto golo, onde é que já se viu o Quintero inventar um passe daqueles, em vez de lateralizar o jogo para a linha, de onde, por certo, o Quaresma tiraria mais um dos seus cruzamentos tecnicamente horripilantes, mas que, pasme-se, vai, não vai, surtem em golo.

 

E o último, nem tenho palavras. Afinal de contas, o futebol é ou não é um jogo colectivo? Degredo imediato para o Danilo!

 

danilo18.jpg

 

Portanto, se bem percebi, e deixando de fora os penáltis do Herrera e do Danilo, mais o empurrão do Casemiro em plena área que o Olegário deixou por assinalar, é por isto que me dão os parabéns?

 

Tenham juízo. 

 

Está decido, de hoje em diante só vou festejar as vitórias que brotem de golos resultantes de lances de futebol colectivo, de onde ressalte o verdadeiro labor da equipa, que sejam fruto de uma esquematização táctica bem delineada, depois de horas e horas de trabalho de laboratório, vulgo, treino, que se olhe para eles e se veja geometria em movimento, e claro está, que sejam esteticamente belos e perfeitos.

 

E se pensam que estou apenas a ironizar, podem tirar o cavalinho da chuva. Descobri recentemente um nicho pouco explorado, de adeptos portistas que, não obstante o FC Porto ganhar e alguns dos seus jogadores, apenas alguns, marcarem golos, por vezes até decisivos, não se dão por satisfeitos.

 

Querem mais. No fundo, querem a perfeição, o gesto tecnicamente perfeito, diria o Gabriel Alves. É com eles que quero estar, e é com eles que vou passar a estar. Poderei eventualmente andar mais mal disposto, mais azedo e corrosivo naquilo que escrevo, mas azar, é o preço a pagar pela celebração da perfeição.

 

E nada menos do que isso.

 

Nota à navegação: não levem a sério. Compreendo perfeitamente que todos nós temos jogadores que admiramos, e outros que só queríamos ver pelas costas, desde que não fosse com as cores do tal clube grande.

 

No entanto, e apesar disso, até quando alguns acertam, usar isso para criticá-los, como por aí tenho visto, excede quanto a mim o razoável. A tad far fetched in my book. 

 

 

 

publicado por Alex F às 15:38
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2 comentários:
De Miguel | Tomo II a 2 de Dezembro de 2014 às 19:04
@ Alex

eu acho que muitos desses portistas confundem exigência com ingratidão mesmo. são aqueles que refletem com muito orgulho sobre tudo e sobre nada do nosso quotidiano e para quem nada vale e onde há sempre algo que nunca está bem. imagina que até na goleada ao BATE num jogo quase perfeito e dos mais conseguidos esta época houve críticas feroses...

abr@ço
Miguel | Tomo II
De Alex F a 2 de Dezembro de 2014 às 23:22
Sabes Miguel, embora preze a gratidão, enquanto valor, a minha experiência diz-me que por vezes é o argumento usado para nos amarrar a determinados pressupostos e estagnar, ou seja, meio caminho andado para o imobilismo.

Sim, acertaste num dos sítios onde li este tipo de comentários, mas os que li não eram da autoria de quem lá escreve, mas de comentadores que por lá passam com regularidade.

No fundo, não me parece que seja ingratidão, acho é que têm uma visão redutora daquilo que é um jogo de futebol, e procuram resumi-lo a duas dimensões, transformando variáveis em constantes de modo a encaixá-lo numa papeleta de treinador.

Para isso, socorrem-se de uma série de princípios teóricos do jogo, que já provaram serem potenciadores da obtenção de vitórias, e é óbvio que, quanto mais perto estivermos deles, mais nos aproximaremos da vitória.

Mas não são tudo. A chichinha, como tu dizes, é redonda, e haverá sempre uma dimensão aleatória no jogo. Quem melhor a controlar é quem ganha, não a controlar gera insegurança, e basicamente julgo que isso que procuram evitar, o que não me irrita por aí, além.

O que me chateia verdadeiramente é que, não concordem com determinados aspectos da realidade, como por exemplo, alguns jogadores, e empreguem esses mesmos princípios teóricos para apontar erros, até quando as coisas, por outra via, correm bem.

O futebol não é, e nunca será uma ciência exacta. A não ser no que toca à selecção alemã...

Abraço

Alex




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