Terça-feira, 20 de Novembro de 2012

O muso inspirador

 

 

“Todavia, eu devo ter visto um jogo diferente de, por exemplo, os enviados deste jornal. Vi, uma vez mais, um Lucho completamente fora do jogo, incapaz de fazer um passe certo, comprido ou curto, desastrado a rematar, lento a atacar: mas depois li que tinha sido o melhor em campo.

 

(…) o ataque do FC Porto vive da dinâmica criada por três jogadores determinantes Moutinho, James e Jackson Martinez – à volta dos quais vagueiam, sem sentido, dois outros – Lucho e Varela que apenas esperam uma oportunidade caída do céu para marcar um golo, que consiga esconder o pouco ou anda que actualmente acrescentam à equipa”.

 

“É uma diferença ver uma equipa de gente pouco experiente a jogar sem bússola que os oriente enquanto navegam por mares acidentados (ma non troppo, porque o Nacional é fraquinho), mas quando o comandante é…El Comandante, as coisas piam mais fininho que um castrati depois de levar um pontapé nos tomates metafóricos. Paradoxal, eu sei, just go with it. Lucho tem nível, classe, elegância. Mas tem, acima de tudo, a experiência e a inteligência competitiva que lhe permite estar em campo e fazer com que todos olhem para ele e tentem perceber o que é que o líder pretende e o que é que terão de fazer para receber a sua aprovação. Lucho é tão importante para o FC Porto 2012/13 como Deco era em 2003/04. Não preciso de dizer mais nada, pois não? Ah, esperem. GOLAZO!”

 

Dois jogos. Duas análises. Um jogador – Lucho Gonzalez. Até aqui nada de mais. Os desempenhos dos atletas variam de partida para partida, sem que seja preciso ver reencarnar neles um qualquer Dr. Jekill e Mr. Hyde.

 

Duas observações produzidas após duas partidas diferentes, mas que não se circunscrevem a esse dois momentos.

 

E, estranhamente, ou talvez não, duas apreciações que não tenho qualquer pejo em subscrever, para mais ainda, tendo em conta quem são os seus autores, gente reputadíssima, da mais alta estirpe.

 

Os dois primeiros parágrafos são provenientes da crónica do Miguel Sousa Tavares, “Um lugar na Europa”, escrita após a nossa partida em Kiev, onde conquistámos o direito a aceder aos oitavos de final da Champions, e fui buscá-los aqui.

 

O último, por sua vez, é oriundo da rúbrica “Baías e Baronis” relativa ao jogo da Taça de Portugal com o Nacional da Madeira, e fui pescá-lo a um dos locais mais credíveis da nossa bluegosfera, sendo da lavra de um dos autores em quem mais confio – o Jorge, do Porta 19.

 

Vi o encontro de Kiev, não vi o da Choupana. Na Ucrânia, não consegui ver tudo o que Sousa Tavares viu. Por outras palavras, não vi o Lucho Gonzalez “incapaz de fazer um passe certo, comprido ou curto, desastrado a rematar, lento a atacar”.

 

O que vi, efectivamente foi El Comandante “completamente fora do jogo”, de tal maneira que nem naqueles pormenores reparei.

 

Mesmo sem ter visto o jogo da Madeira, e sem me querer comprometer na comparação com o Deco, também não tenho qualquer dúvida em corroborar o restante daquilo que o Jorge escreveu.

 

Porquê? Passo a explicar. 

 

A última vez que vi ao vivo a nossa equipa, foi na Supertaça de 2008, que perdemos 0-2, com o Sporting. De quem? Nada mais, nada menos que do Paulo Bento, tão na berra ultimamente.

 

O meu sogro, sportinguista, arranjou os bilhetes – até parecia que adivinhava! – e lá seguimos para o nosso elefante branco. Por sorte, nem ficámos perto um do outro (ele tinha um lugar de honra, e eu fui para a bancada com o meu cunhado, benfiquista. Boa companhia, portanto) …

 

Nesse jogo, houve Xistra, houve um Rochemback, que devia ter sido expulso e um Yannick Djaló, que deve ter feito nessa tarde/noite o jogo da vida dele. Ainda assim perdemos, quase exclusivamente, por demérito próprio.

 

Demérito porque, dentro da rigidez empedernida do 4x3x3 do Jesualdo Ferreira, fomos incapazes de responder tacticamente ao então famoso, losango do meio-campo do adversário.

 

O Moutinho, o Renhánholi e o Derlei, e por vezes, ainda o Rochemback, caiam sobre o Sapunaru, sem que se visse sombra do médio que deveria ajudar na cobertura àquele lado. Precisamente o Lucho Gonzalez.

 

No outro lado, o Izmailov, com as ajudas intermitentes do Abel e do Djaló, punham em sentido o Benitez e o Raúl Meireles.

 

Quando o losango basculava para a esquerda, o que acontecia quase por sistema, os adversários superavam em número os nossos jogadores. O Lisandro tentava fechar como podia, mas faltava sempre alguém, e o Lucho, pouco ou nada defendeu.

 

Se o fluxo do jogo virava para o outro lado, viam-se os nossos rapazes a esfalfarem-se a correr atrás da bola, e quase sempre, o Lucho Gonzalez sozinho no outro flanco. Um espectador atento, completamente fora do jogo.

 

Infelizmente, foi essa imagem da nossa equipa e do El Comandante que retive do último jogo que tive oportunidade de presenciar ao vivo e a cores.

 

Confesso que na altura, isso irritou-me solenemente, e como tal, também não fui dos que ficaram esfusiantes com o seu regresso.

 

Porém, meu caro Miguel Sousa tavares, há coisas com as quais temos de viver, e mais vale que o façamos serenamente. “Primeiro estanham-se, depois entranham-se”.

 

Do nosso capitão não se espera um elevado grau de comprometimento com os processos defensivos da equipa. Tão pouco será expectável que pegue na bola e corra com ela nos pés, até ao momento oportuno de endossá-la a um colega colocado na cara do golo. Isso era com o Deco.

 

Não, o que se espera é que faça uso da sua inteligência, e faça correr a bola e aos colegas de equipa, criando-lhes as oportunidades adequadas para que concretizem os golos que nos levem às vitórias.

 

Ou, nesta sua versão actual, em que surge mais próximo dos avançados e das zonas de concretização, que faça uso do seu remate, e marque golos, como fez para a Taça de Portugal.

 

Rasgos de clarividência e classe. Momentos superlativos que felizmente, o definem enquanto jogador.

 

Por isso, é natural que vagueie à volta dos demais avançados. Mas não é certo que o faça sem sentido. Há ali, quer se queira, quer não, muito a propósito e muita experiência.

 

É isso que aporta à equipa, como diz o Jorge. Do El Comandante espera-se que traga os toques de inteligência e de classe que nos falt(av)am para que as vitórias surjam naturalmente, e que progressivamente deixem de estar na dependência de rasgos individuais e arrancadas do Hulk, para resolver as partidas.

 

É um líder por excelência, dentro e fora do terreno de jogo, e a sua presença, a par da limpeza de balneário operada desde Janeiro passado, permitirão ao treinador gozar de uma vida mais serena do ponto de vista disciplinar.

 

Quanto ao resto, é ir vivendo com ele, na certeza porém, de que é, e vai ser cada vez maior, a importância da equipa no sentido de suprir a ausência física do Hulk e as ausências episódicas do seu líder.

sinto-me:
música: Wonderwall - Oasis
publicado por Alex F às 13:33
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