Essa coisinha maluca chamada realidade
O Jorge procurou fazer uma síntese das opiniões prevalecentes sobre esta matéria, que no fundo se resumem a uma e única questão: a falta de um ponta-de-lança é impreterível.
Falta saber é se esse assunto é para resolver já, nesta reabertura do mercado, ou se vamos pensar calma e ponderadamente sobre o tema, que a conjuntura (leia-se: “a falta de pilim”) não está para aventuras, e o tempo que demora a ambientação de um novo elemento com as características necessárias, poderá por em causa a oportunidade da contratação.
Hão de convir, se fizerem o obséquio, que neste assunto, se houve propostas que mereciam um prémio pela originalidade, foram as minhas. Ir buscar o João Tomás ou colocar o Rolando a avançado, admitam lá, não lembrava a alguém com um mínimo de bom senso.
Bem, a do Rolando até nem prima por ser muito inovadora. O Bobby Robson, perdão, Sir Bobby Robson, foi buscar o Vinha, e depois, em desespero de causa, punha o João Manuel Pinto a ponta-de-lança. Mas era só no final dos jogos, e como disse, em última alternativa (ou quase).
For argument’s sake, admitamos “que Hulk é para ser pdl, [e] nas condições actuais é o melhor que temos”, como diz o Zé Luis.
Não andarei muito longe da verdade se disser que a opinião quase generalizada entre portistas, e não só, embora o “não só” tenha para aqui pouca ou nenhuma relevância, é de que o Givanildo rende mais a jogar à linha, ou em progressão para o centro, do que emparedado, coisa que raramente acontece, mesmo quando joga a ponta-de-lança, entre os centrais adversários.
Se assim é, então desculpem lá, mas porque diabos é que estamos sequestrados ou reféns, amarrados a este esquema ou modelo táctico que exige um ponta-de-lança, que claramente, não temos?
Dir-me-ão, que tal como um qualquer avançado que viesse agora, necessitaria de um período de ambientação, também uma alteração desta ordem no modelo de jogo, exigiria uma fase de maturação. E têm toda a razão.
Mas, se esta história do avançado-centro já vem desde o início da temporada, se as dificuldades do Kléber eram de tal maneira evidentes, que para a Liga deixou de ser titular em Setembro (só o tornou a ser contra o Olhanense, em Novembro, à 10.ª Jornada), não haveria tempo para testar um sistema alternativo?
Lembram-se do Adriaanse? Não sei quantos ensaios laboratoriais terá feito, apenas que, de um momento para o outro a equipa apareceu a jogar naquele 3x1x3x3 suicida. E fomos campeões!
É claro que então, tínhamos entre outros de inegável classe, o Bosingwa e o Pepe, como bombeiros (in)voluntários de serviço, e o Paulo Assunção, a dar consistência ao meio-campo defensivo.
Passemos à frente desta questão do ponta-de-lança. Ou por outra, imaginemos que até tínhamos um daqueles que fazem inveja à concorrência.
Para que o 4x3x3 funcione a preceito, tanto numa versão “transições rápidas” à la Jesualdo, ou num formato mais de ataque continuado à Villas Boas, para além do homem dos golos, são precisos bons extremos e, a bem da necessária consistência defensiva de que falei há pouco, um trinco. Um sustentáculo para o meio-campo, libertando para tarefas mais ofensivas os outros dois elementos do três do centro do terreno.
O que é que vemos no nosso plantel? O Hulk é puxado para o meio. O outro titular da época passada, o Varela, só agora parece querer carburar e ressurgir. O Cristián Rodriguez é o que se sabe, apesar, ultimamente, dos seus inegáveis esforços. O Djalma é bom rapaz. Agora anda lá pela CAN, mas olvidando as suas maiores apetências defensivas face aos concorrentes pelo lugar, do ponto de vista ofensivo, não acrescenta muita coisa.
Tanto o James como o Iturbe, até poderão fazer o lugar, mais o primeiro, que o segundo, todavia nenhum deles será propriamente um extremo.
Ou seja, se retirarmos o Fernando, o que o Hugo Miguel já fez para o nosso próximo jogo em Barcelos, que é o “tal” trinco, nenhum dos flanqueadores actuais parece preencher os requisitos necessários para o tal 4x3x3. Por outro lado, quase todos eles revelam bastante propensão para flectir (ou será penetrar?) para dentro do terreno. O Varela será, talvez, o mais puro dos extremos.
Então, tudo somado, actualmente, não temos ponta-de-lança, nem alas ao jeito deste tipo de esquema táctico (nota: não quer dizer que algum destes últimos não se supere, e me faça engolir a seco, o que acabei de escrever. Era bom!).
Para além disso, o que é que temos?
Temos uma série de médios, com características algo semelhantes, que podem assegurar uma certa rotatividade e opções várias, para as duas posições que sobram no meio terreno.
João Moutinho, Belluschi, Defour e agora mais o Danilo, e ainda, embora sendo alternativas mais rebuscadas, o Souza, e aquele rapaz colombiano, que é como os sogros, está sempre de saída, mas nunca mais desampara a loja.
Ainda temos um lateral-esquerdo com uma franquíssima propensão ofensiva, e que sem espinhas chama seu ao flanco todo, dêem-lhe os médios citados o apoio necessário para triangular e a adequada cobertura, e um lateral direito, mais defensivo, que garante uma maior estabilidade no sector recuado, quiçá com a mente em Manchester.
E jogadores, uns com mais capacidade de organizar, outros mais para romper, que podem fazer uma posição 10: o James, o Iturbe, o João Moutinho, que serão os “organizadores”. Os “rompedores” seriam o próprio Cristián Rodriguez, e, com muitas reticências nestes dois, o Belluschi e o Djalma.
Esta é, para mim a realidade do nosso plantel, naquilo que interfere com a alteração táctica de que falo.
Ou seja, a defesa e o meio-campo ficariam na mesma, o três de ataque passava a ser um 1x2, sem ponta-de-lança fixo entre os centrais, mas com dois avançados mais móveis.
Para perceberem do que estou a falar, imaginem o FC Porto do Ivic, com o Madjer, o Gomes e o Rui Barros, ou o do Carlos Alberto Silva, com o Domingos e o Kostadinov. É disso que estou a falar.
Será difícil? Há quem diga que sim, nomeadamente a do nosso ex-treinador André Villas-Boas.
Dizem em desfavor deste sistema, que esta explanação no terreno obriga a compensações constantes, e que o 4x3x3 permite uma ocupação mais racional do espaço de jogo.
Bem sei que não percebo muito disto, mas, qual é a grande premência da “ocupação racional do terreno”? Se estivéssemos a falar de matraquilhos, com os bonequinhos todos presos às suas posições, ainda vá que não vá, mas em futebol?
Dá-me ideia que o essencial não é tanto o dispositivo, mas a dinâmica que os jogadores emprestam ao mesmo.
Já vi o FC Porto ser campeão a jogar em 4x3x3, em 4x4x2, em 4x3x1x2, em 3x1x3x3, com os mais variados treinadores e jogadores. Será algo assim tão descabido ponderar a hipótese de uma táctica alternativa, uma espécie de plano B?
Estaremos irremediavelmente sequestrados e reféns do 4x3x3, mesmo quando quase tudo desaconselha a sua utilização?
