Terça-feira, 15 de Maio de 2012

Eu, descrente, me confesso – Segunda parte

 

Ora então, agora que chegámos ao fim desta edição de 2011-2012 da Liga Zon Sagres, parece-me que será o momento oportuno para continuar a minha confissão de descrente.

 

O senhor que se segue, terá necessariamente que ser o nosso Vítor Pereira. Sobre ele já foi quase tudo dito, e muito sinceramente, revejo-me em muito do que escreveu Ricardo Costa, no Mística Azul e Branca.

 

Ao contrário, por exemplo, do André Villas Boas, o Vítor Pereira não me gerou à partida, um sentimento de desconfiança.

 

Como disse por alturas do início de Janeiro, entendi a sua promoção numa perspectiva de continuidade, em relação a uma época 100% vitoriosa, Taça da Liga à parte.

 

A manutenção da quase totalidade da equipa anterior, mais os reforços, aparentemente consistentes que entraram, tudo indiciavam nesse sentido. A perda, não suprida em devido tempo do Falcao, seria o único elemento dissonante nessa trajectória.

 

A época até nem começou muito mal. O FC Porto conquistou a Supertaça frente ao Vitória de Guimarães, finalista derrotado da Taça de Portugal da temporada transacta, e embora sem o brilhantismo de uma vitória frente a um candidato ao título, como em 2010-2011, fez o suficiente para triunfar e venceu.

 

Na Liga Zon Sagres entrámos em velocidade cruzeiro, com duas vitórias até à partida da Supertaça Europeia, contra o Barcelona. Este jogo, apesar da derrota e das duas expulsões, elevou as expectativas. A pressão alta e a posse de bola reveladas até ao primeiro golo, ainda que contra um Barça em regime de rotações de férias, deixavam boas indicações de resposta às necessidades caseiras.

 

Somaram-se também por vitórias os dois embates seguintes para a Liga, sendo que, contra o Vitória de Setúbal foram poupados de início o Hulk e o João Moutinho, a pensar no Shakhtar Donetsk. Acabariam por entrar na segunda parte, contribuindo para vencermos por 3-0.

 

Vieram então os ucranianos, e após a vitória por 2-1, o nosso treinador, maravilhado com a exibição do James nesse jogo, saiu-se com aquela observação, que marcou o início da minha desconfiança:

 

"Temos muitos jogadores de qualidade. O meu papel é não estragar o talento que tenho em mãos e deixá-los desfrutar do jogo e crescer como equipa, sem muitas amarras tácticas. Espero não estragar o talento que tenho em mãos"

 

Ainda que, em tese, não possa deixar de concordar com o que disse, não compreendi, até bastante mais tarde na temporada, a subserviência e a posição de subalternidade que manifestava em relação aos jogadores seus comandados.

 

Desagradam-me os treinadores que se colocam a si próprios em bicos de pés e esquecem-se da matéria-prima ao seu dispor, mas também, “quem muito se verga, o rego se lhe enxerga”.

 

Veio o empate com o Feirense, em Aveiro, onde o James, quiçá por força daquele elogio, resolveu a dada altura tomar nos ombros o peso da equipa (com o Guarín e o Belluschi a formarem o trio de meio-campo com o João Moutinho, também não restaria grande alternativa), desgastou-se até à medula, e acabou expulso.

 

A seguir foi o empate no Dragão, contra o segundo classificado, e aí sim, começaram a desilusão e o desmoronar do castelo de cartas.

 

Daí para diante, confesso que, muitas vezes, quase todas, deixei de entender o discurso e as opções, ambos erráticos do nosso mister. A perspectiva de continuidade em relação ao passado esfumou-se completamente com as dispensas de Janeiro e as contratações do Lucho e do Janko.

 

A eliminação contra o Manchester City, e a leitura que o nosso treinador fez desses dois jogos da eliminatória, mais do que os maus resultados contra o Apoel e o Zenit, ou da eliminação na Taça de Portugal, às mãos da Académica, deixaram-me de sobremaneira preocupado.

 

No entanto, até conseguimos dar a volta por cima, e entrar no Estádio da Lucy em primeiro lugar, ainda que em igualdade pontual com o nosso mais directo rival. A vitória nesse jogo animou as hostes, e pareceu revelar um novo Vítor Pereira. O que ficou por perceber foi se esse Vítor Pereira era fruto do desespero de causa, ou se era mesmo assim.

 

O empate com a Académica marcou o retorno à (a)normalidade, e começaram a formular-se algumas hipóteses, sem se chegar, porém, a uma conclusão definitiva. Contudo, considerei que o treinador deveria ir até ao final. Era tarde demais para o substituir.
 
 
 

A opinião que expressei na altura foi de que, nunca deveria ter sentado o traseiro naquela cadeira. Confesso agora, em jeito de mea culpa, e como fiz na primeira parte deste texto, em relação aos demais treinadores mencionados, que exagerei, e o título de campeão está aí para comprová-lo.

 

O Vítor Pereira pode não ser um mestre da táctica, pode fazer opções incompreensíveis para a grande parte dos mortais, pode ser uma nódoa na gestão dos recursos humanos ao seu dispor, e ser tão incapaz de motivar a equipa como o Primeiro-Ministro de convencer-nos da bondade do desemprego, mas é campeão.

 

Por si só, sozinho, sem ficar na sombra de quem quer que seja. E conseguiu chegar lá numa época em que, para além da teimosia da SAD e de alguns adeptos, poucas ajudas teve daqueles que, mais do que quaisquer outros, deveriam ter estado consigo. Esse é, sem sombra de dúvida o seu grande, grandiosíssimo mérito

 

É claro que, para aquilo que é o FC Porto, foi uma época frustrante, salva in extremis pela vitória na Liga, que, de objectivo prioritário à partida, se foi, passo a passo, convertendo em objectivo único. Para além da Supertaça Cândido de Oliveira, claro está.

 

Do ponto de vista daquela que é a filosofia de gestão da SAD, foi também um passo atrás. O falhanço rotundo em matéria de competições europeias prejudicou a valorização de activos, que com a excepção honrosa do Maicon, deixou bastante a desejar. Os jogadores “vendáveis”, ou mantiveram o seu valor de mercado, ou dificilmente as ofertas que por aí apareçam, atingirão montantes alvitrados, por exemplo, na temporada passada.

 

Ainda assim, a saída de jogadores como Rolando, Álvaro Pereira, Fernando, João Moutinho, Hulk ou James, é, nalguns casos inevitável, e noutros bastante provável.

 

No entanto, por aquilo que se viu, pouco acautelada foi sendo a transição para uma realidade em que, pelo menos alguns daqueles jogadores, especialmente do meio-campo para diante, não estejam presentes. Djalma, Iturbe, Atsu e Kelvin serão as apostas para a próxima época?

 

Enfim, como se viu, fomos campeões, por mérito próprio e demérito de outros, mas essencialmente porque, como (quase) sempre, fomos Porto, e sempre seremos.

 

Agora se me perguntarem: “E em 2012-2013, Vitor Pereira, sim ou não?”

 

Ao contrário do que se diz no Mística Azul e Branca e noutros sítios, direi, correndo o risco de plagiar alguém: “Vítor Pereira forever”!

 

Por aquilo quanto disse sobre o seu mérito, apesar dos pesares dos seus deméritos. Por todas as provações porque passou ao longo da última temporada, e que superou. Porque, agora, é campeão de facto.

 

E porque o arranque da próxima época vai ser extremamente complicado. Dependendo do número de saídas, haverá que recompor a equipa, integrar os que chegarem e gerir os egos dos que ficarem para trás. Ou seja, um processo ligeiramente diferente daquele que concluiu, e um novo momento de aprendizagem.

 

Para além disso, há que ter em conta que no clube que perdeu o sprint final para o título, os tempos são conturbados e irá decorrer em Outubro uma espécie de processo eleitoral.

 

A estrutura vai manter-se, e para já, não se ouve falar em grandes ofertas ou saídas de jogadores (para além do Eduardo, que nem é titular). Adivinha-se por isso, uma aposta forte no início da próxima temporada para segurar o treinador e serenar os ânimos até ao sufrágio.

 

Por tudo isto, vale o que vale, e é muito pouco, mas o Vítor Pereira é sem margem para dúvidas, o meu treinador para 2012-2013.

 

 

música: Every looser wins - Nick Berry
sinto-me:
publicado por Alex F às 13:33
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