Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

B-Side Themselves

 

 

É oficial. Assim o diz o comunicado. Vamos voltar a ter equipa B. Depois do primeiro ensaio na II Divisão, agora é o regresso, pelo que se lê, para a Liga Orangina.

 

Faz sentido. Se esta e a Liga principal são as que albergam os profissionais, o que é que as equipas B andavam a fazer no meio dos amadores?

 

A primeira vez que ouvi falar em equipas B ou filiais, com alguma expressão, foi a propósito do Castilla, curiosamente, filial do Real Madrid.

 

Digo curiosamente porque agora o que se fala é da cantera blau grana, mas de facto, a melhor coisinha que me lembro de ter saído da formação espanhola, antes deste Barça do tiki taka, foi a ”Quinta del Buitre”.

 

 

 

Butragueño, Pardeza (na altura, no Saragoça, pois nunca se afirmou na equipa principal do Real Madrid), Michel, Manolo Sanchis e Martín Vasquez, foram, a partir de meados dos anos 80, o produto topo de gama da cantera madridista, todos com passagens pelo Castilla.

 

A seguir vieram os “galácticos”, e a relevância da formação de Madrid esmoreceu, cedendo a primazia à catalã.

 

É apenas um exemplo. A propósito das equipas B, como em tudo nesta vida, há opiniões pró e contra.

 

Um dos argumentos frequentemente aduzidos a favor, é que com a integração dos jovens jogadores nas equipas B, se evitam hiatos competitivos na transição da formação para o futebol sénior.

 

É verdade. Assim, os rapazes atingem a idade sénior, e em vez de ficarem a fazer de bonecos de carne e osso para os treinos das equipas dos adultos ou a aquecer os bancos de suplentes, conseguem manter alguma rodagem, evitando-se rupturas abruptas na sua evolução enquanto jogadores.

 

Na realidade, não é nada que não se conseguisse fazer através das usuais políticas de empréstimos a outros clubes, eventualmente, apenas com prejuízo de aspectos como a monitorização do seu desenvolvimento pelo clube a que pertencem, e a desagregação de um grupo de trabalho, que poderá estar junto há alguns anos.

 

Confesso que não tenho acompanhado muito de perto o futebol jovem nos últimos tempos. Daquilo que me recordo, os campeonatos disputavam-se em duas fases: a regional e a nacional. Na fase regional, a grande dúvida, no que aos clubes maiores (ou mais grandes, consoante o caso) tocava, resumia-se a saber por quantos iriam ganhar cada jogo.

 

Somente na fase nacional é que as coisas começavam a apertar, com os confrontos entre os grandes, intermediados por momentos de descompressão nos confrontos com os representantes das ilhas.

 

As coisas mudaram, e ainda que o formato não seja o mesmo, a competitividade das primeiras fases, se não é a mesma, andará por perto.

 

Ou seja, os rapazes só são levados a esforçar-se a sério numa fase mais avançada da prova, logo, parece-me que aquela questão do hiato competitivo, poderá não se colocar verdadeiramente. Por seu turno, as equipas B, em vez de se traduzirem numa continuidade, funcionarão mais como uma espécie de “estágio de fim de curso”.

 

Seja como for, o resultado final tenderá mais para o positivo, que para o negativo.

 

Outro aspecto que me parece positivo, ainda que admita, me deixe confuso, tem a ver com a artificialidade em que vive o futebol português.

 

Como se viu esta temporada com a União de Leiria e o Vitória de Guimarães, numa evolução para pior, no primeiro caso, em relação ao que se vira noutras épocas com o Vitória de Setúbal e o Estrela da Amadora, ou como é tradicional no nosso futebol, as receitas correntes auferidas pelos clubes são, em muitos casos (a maior parte, quiçá), insuficientes para fazer face, até àquelas despesas que são instrumentais para se manterem em competição, como o são os vencimentos dos seus atletas.

 

A União de Leiria, mesmo contando no seu plantel com jogadores, cujos encargos salariais eram suportados por outrém, nem assim logrou honrar os compromissos assumidos com os demais jogadores.

 

Os nossos clubes, basta ver os relatórios de contas recentemente divulgados, acumulam prejuízos operacionais, e só se conseguem manter à tona d’água, através de antecipações de receitas e transferências contabilísticas de estádios do clube para a SAD, e vice-versa, quando convém, ou de receitas extraordinárias decorrentes das vendas de activos.

 

Os empréstimos de jogadores são uma forma de os clubes receptores conseguirem manter planteis com alguma competitividade, sem um acréscimo significativo de custos.

 

Da outra banda, os que cedem os jogadores, se o fazem por motivos meramente desportivos, leia-se, para manter em actividade jovens recém saídos dos escalões de formação, ou para dar tempo de jogo a jogadores contratados que não se encaixam na equipa principal, poderão, em princípio, por qualquer uma das alternativas, equipa B ou empréstimo, alcançar esse desiderato.

 

Agora, se o objectivo é alargar a sua esfera de influência junto de outros emblemas, criando uma situação de dependência pela via dos empréstimos de jogadores, as equipas B não parecem constituir a opção mais válida.

 

Concorrendo assim esta medida, para uma maior transparência no relacionamento entre os clubes, digo por isso, que me faz alguma confusão a adesão à mesma manifestada por alguns emblemas.

 

Do lado dos receptores, também estranho a aceitação desta medida. Parece evidente que não só perdem o acesso aos atletas excedentários nos planteis dos clubes com maiores posses, como, nalguns casos, ainda irão entrar em concorrência directa com as equipas B, desses mesmos clubes.

 

É bem certo que, não obstante a criação das equipas B, os empréstimos não terão os seus dias contados, tout court.

 

Vejam-se os casos do Abdoulaye Ba, que põe liminarmente de parte a hipótese de alinhar pela equipa B, pois “quer(…) e precisa de jogar numa boa equipa”, para se manter na selecção olímpica do seu país (e depois dá um exemplo de “uma boa equipa“, que não lembra o diabo!), ou do Fabiano, recentemente contratado, mas que vai permanecer mais uma temporada ao serviço do Olhanense.

 

Um outro ponto a favor das equipas B será, conforme mencionei no início, que a proximidade se poderá traduzir numa maior facilidade de monitorização da evolução dos jovens jogadores. Com as equipas B, os clubes podem manter sob a sua alçada os jovens que formaram, e de certa maneira, prosseguir a sua formação dentro daqueles que são os parâmetros do clube, em termos técnico-tácticos e da própria cultural organizacional.

 

Fazendo um paralelismo, é um pouco como as famílias da geração Deolinda, mas por opção própria.

 

As famílias, dadas as vicissitudes dos tempos de crise que atravessamos, vêem-se compelidas a albergar os filhos no seu seio, até cada vez mais tarde. Enquanto, para alguns, tal situação é fonte de saturação e frustração de parte a parte, noutros casos, teremos filhos que se acomodam à situação e progenitores-galinha, que anseiam mantê-los a todo o custo sob a sua asa protectora.

 

Nestes casos, dificilmente algum dia viremos a ter adultos, quanto mais adultos autónomos.

 

Assim correm o risco de ser as equipas B dos clubes. Ao longo da história do futebol há casos de jogadores jovens, que, uma vez concluído o seu período de formação, chegam às equipas seniores, e pegam de estaca. A sua qualidade é de tal ordem, que lhes permite jogar em qualquer clube, grande ou pequeno.

 

Há outros, fundamentalmente nos clubes de maior nomeada, que, embora os recursos de que são detentores lhes permitam fazer carreira no futebol, não se conseguem fixar nas equipas principais.

 

Continuando numa analogia arborícola, vão sendo enxertados em vários outros clubes de menor dimensão, até que, consumada a separação do clube-berço, encontram as condições necessárias para pegar noutro sítio qualquer.

 

E depois há os que, pura e simplesmente, não vigam, e as suas carreiras ficam por aí.

 

É a ordem natural das coisas. A selecção natural de que falava Darwin, essencial para a evolução das espécies, e cuja única excepção conhecida será talvez, a administração pública portuguesa.

 

Aqui, não será tanto a evolução que estará em causa, porque esse é um factor de certo modo aleatório, e só com uma overdose de boa vontade se acreditará aí poder imiscuir as equipas B.

 

Contudo, se levarmos em linha de conta os dados disponibilizados pelo Jorge, no Porta 19, sobre o aproveitamento dado aos jogadores oriundos da equipa B, questiono-me sobre a sua efectiva mais-valia.

 

Ainda assim, se for para termos nas nossas fileiras artistas do quilate dos cinco da fotografia, subscrevo inteiramente a sua criação.


 

Nota: “B-Side Themselves”, é o título de uma colectânea de músicas dos Nirvana, do tempo em que os discos eram de vinil e tinham dois lados. Estas seriam as músicas que acompanhavam as que davam nome aos discos, neste caso os “singles”.

 

Os Marillion têm uma colectânea de nome parecido, “B’Sides Themselves”. Gosto de ambos, mas prefiro os Marillion.

 

Apesar disso, para hoje, temos Nirvana.

sinto-me:
música: Pay to play - Nirvana
publicado por Alex F às 13:41
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