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Azul ao Sul

Algarvio e portista E depois? O mar também é azul...

Azul ao Sul

Algarvio e portista E depois? O mar também é azul...

Um leão só e triste

17
Out13

O Carlos Tê, no seu "Porto Sentido", perpetuado pelo Rui Veloso, falava em "lampiões tristes e sós".

 

Nos dias que correm foi descoberta uma nova variedade: a dos lagartos sós e tristes.

  

 

Numa lógica muito valedeazevediana, talvez inspirada num Governo, que corta onde é mais fácil, em vez de reformar, o moçoilo, actual presidente do Sporting, descobriu que atacar o presidente do FC Porto compensa.

 

Nada de especial, vindo de um pobre coitado que faz lembrar aqueles putos queques da escola, com muita bravata, muita conversa, e uma postura empinada, mas que quando acossados, viola no saca e ala, que se faz tarde.

 

No fundo, não passa de um gajo solitário. Atacar o presidente do FC Porto é apenas um meio para granjear admiração junto dos adeptos do seu clube. Porém, afasta-o do FC Porto.

 

A estratégia, como se tem visto, joga-o nos braços do rival da Segunda Circular. É o ressurgir da Grande Lisboa. Os adeptos, esses não morrem de amores pelo adversário mais próximo. Contudo, o seu instinto de melancia deixa-os eufóricos perante as farpas dirigidas ao norte.

 

Resultados práticos? Nenhuns. Basta relembrar, mau grado a aliança lisboeta, a postura do presidente da Associação de Futebol de Lisboa. Passa pela cabeça de alguém que os do outro lado, depois de três anos sem molhar a sopa na Liga, e de uma época 100% fracassada, deixem escapar algum título para as bandas da Calimeroláxia?

 

Lá se vai a aliança, e veremos se não irá a admiração dos adeptos. É possível que não, porque afinal, as claques, que conseguiu, dê-se-lhe esse mérito, pacificar e juntar, estão com o homem.

 

Mas, do ponto de vista institucional, o que é que valem as claques? Com grande parte do património hipotecado ao BES e ao BCP, e com o capital angolano a financiar as aquisições de jogadores, já se viu que tanto faz um Godinho Lopes, como um Bruno de Carvalho. Com quem quer que esteja à frente do clube, quem manda são os bancos e os angolanos. As claques? Está bem, abelha.

 

O presidente do Sporting bem pode estar a realizar o seu sonho de criança, mas é no fundo, um homem só. A qualquer momento, e com a maior das facilidades, ver-se-á abandonado. Como dizia a minha professora da primeira classe, não passa de um pateta alegre.

 

Um pateta alegre bem pago, é verdade, com um salário de 5.000 euros, aprovado em Assembleia Geral pelos seus amigos das claques, mas ainda assim, um pateta alegre.

 

E vamos à parte do triste. É triste que o presidente de um clube como o Sporting, para fazer prova de vida, se tenha de pôr em bicos de pés e tente achincalhar alguém, a cujos calcanhares não chega nem em cima duma escada de bombeiros.

 

Fazê-lo, utilizando para isso a questão da idade, é ainda mais triste. Não por causa da menção ao seu próprio progenitor, que não terá culpa, coitado, porque assuntos de família são assuntos de família, mas por exemplo, porque o último presidente que foi campeão pelo seu clube tinha, no seu entender, a provecta idade de 69 anos quando tal aconteceu.

 

Ou porque o seu clube bem poderia, ou deveria ter como referência, se é que não tem, alguém como Moniz Pereira.

 

É triste, mas compreensível. Não se espera que um jovem queque irreverente conheça a história mais recôndita do seu próprio clube, e use como tema de brincadeira a idade, ignorando a vetustez de algumas das suas maiores figuras vivas.             

O outro lado contra-ataca

06
Jun12

Quando ontem, ao início da tarde, li o elogio do Figo ao Gaitán, ocorreu-me imediatamente: “Wtf! A que propósito?!”

 

Nem me perpassou pelo espírito que o Figo é a figura decorativa do momento no Inter de Milão, e do propalado “interesse” deste clube no jogador argentino.

 

A coisa soou-me a algo um tanto ou quanto estranho, como que vinda do nada. Ainda para mais, quando é o próprio Figo quem faz questão de frisar, que sendo director de relações internacionais, nada tem que ver com “a parte dos jogadores”.

 

 

Durante a noite, oiço na SIC Notícias, que o Mantorras iria dar por encerrada a sua carreira de futebolista (outra vez?), assumindo as funções de embaixador em Angola, do clube que em tempos, pedia encarecidamente para o deixarem jogar.

 

Festa rija de homenagem na calha, ou seja, «“um ato tão significativo e igualmente enorme emoção e relevância” para os benfiquistas “como para o povo de Angola”», e, como não podia faltar a encimar o cartaz, um jogo de homenagem entre equipas da Fundação do clube e da ACNUR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados).

 

Curiosamente, ainda que o omitam na notícia do canal de Carnaxide, no insuspeito Mais Futebol, por exemplo, acrescentam que o jogo vai ser organizado pela Fundação da casa, o ACNUR e …a Fundação Luís Figo!

 

Poderão alguns achar, após os dois textos que escrevi recentemente sobre as conexões angolanas no futebol português ("Quando a desinformação começa em casa" e "Mariquinha vem comigo pr'Angola"), que estou a exagerar.

 

A realidade é que, cada vez mais Angola e o capital angolano, assumem um papel de elevadíssimo relevo, no financiamento da actividade económica do País, cujo impacto se pretenderá, consequentemente, estender ao futebol.

 

É por demais evidente que nosso principal rival atravessa aquilo que em termos económicos se poderá designar por, uma enorme carestia de carcanhol. Pilim líquido, e não daquele que se adivinha nas pernas dos jogadores ou no betão dos estádios.

 

Se não vender nenhum jogador durante este defeso, a SAD terminará a época novamente falida, e os empréstimos a reembolsar no curto prazo ascendem a mais de 100 milhões de euros.

 

[Sobre esta matéria, recomendo vivamente a leitura deste artigo no BiTri, "Assim se explica o nosso apoio ao LFV : )"]

 

Além das necessidades financeiras, há a questão não de somenos importância, das eleições de Outubro próximo, para as quais, querendo apresentar-se como um vencedor, talvez não baste ao actual presidente, lançar ataques violentos ao inimigo mais querido.

 

Depois de caucionar a permanência do treinador bi-derrotado nas últimas épocas, ou tri-campeão da Taça da Liga, se virmos o copo meio cheio, a sua própria permanência poderá ficar pendente do aval de terceiros.

 

Festarolas de despedida do Mantorras, e contratações de arraia miúda, como Hugos Vieiras, Luisinhos ou Micheis, com o devido enquadramento, fazem umas capas giras nos pasquins da especialidade, mas não chegam.

 

Falta o peixe graúdo, o(s) nome(s) sonante(s) que alimente(m) as esperanças dos adeptos, e que possibilite(m) a imprescindível entrada em força na época de 2012-2013.

 

E para isso, falta o cacau!

  

Das negociações com a Olivedesportos, não se conhecem quaisquer novos desenvolvimentos, logo, por esse lado, não é expectável qualquer antecipação de receitas.

 

 

 

Angola é já ali. Se a aparente proximidade ao Ministro Relvas, no último ensaio da Selecção Nacional para o Euro, não passará além do plano institucional, a via Mantorras, findos que estão os seus tempos de gazua para chegar às balizas adversárias, poderá ser a forma de, pelo outro lado, apelar ao coração do povo angolano, e ir por aí acima na cadeia alimentar.

 

É bem certo que o povo, por aquelas bandas, não conta por aí além, mas…

 

Para terminar, fica o registo de algumas curiosidades/coincidências, sobre alguns dos personagens acima mencionados:

 

 

 

ACNUR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados) – cargo actualmente desempenhado por António Guterres, ex-Primeiro Ministro de Portugal (de Outubro de 1995 a Abril de 2002) e ex-Secretário-Geral do Partido Socialista (entre 1992 e 2002);

 

Luís Figo – feliz contemplado com um pequeno-almoço de 750 mil euros, para aparecer na campanha eleitoral de José Sócrates (ex-Primeiro Ministro de Portugal (entre Fevereiro de 2005 e Junho de 2011) e ex-Secretário-Geral do Partido Socialista (de Setembro de 2004 a Junho de 2011);

 

Luís Filipe Vieira – também ele, tal como Luís Figo, apoiante de José Sócrates;

 

Miguel Relvas – Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do actual Governo PSD e Secretário-Geral do PSD (em 2004 e 2005, e desde 2010).

 

 

Cenas dos próximos capítulos, a não perder!


 

Nota: Outro ponto desta notícia, que é omitido em muitos sítios, mas que o Público refere, é que também marcou presença na nomeação do novel embaixador, para além do embaixador Eusébio, e outros órgãos sociais do clube, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista;

 

Nota2: Por sua vez, a notícia do Público, omite a parte respeitante à intervenção da Fundação Luís Figo. Pergunto-me, como é que sendo uma só notícia, conseguem todos transmiti-la de forma diferente?

Quando a desinformação começa em casa

31
Mai12

“[Miguel Relvas] alegadamente, representa o lobby angolano que, alegadamente terá também interesse em financiar o PSD.

 

Como nas autarquias não há obras, consequentemente não há sacos azuis para financiar as eleições internas dos partidos. (…) os partidos do arco do poder viraram-se para o capital angolano, o que explica a arrogância de Miguel Relvas em relação ao que anteriormente era a base do PSD: os autarcas.

 

Há também dentro do PSD oposição interna, embora discreta. Paula Teixeira da Cruz e Miguel Macedo, são alegadamente os inimigos mais sonantes de Relvas e da sua facção e modus operandi. Não que sejam uns santinhos, apenas representam interesses diferentes. Se Miguel Relvas cai, Passos Coelho fica à mercê do aparelho do PSD. Se Relvas deixa de o controlar, imaginem o quão frágil se torna a posição de Passos...Por isso, penso que esta demissão não irá existir, nem se por hipótese, o próprio a quisesse. Ângelo Correia e os seus não vão deixar o partido à mercê da linha do Balsemão, depois de tanto esforço para conquistar o aparelho para o seu lado, não estou a ver uma oferta de mão beijada”.

 

(retirado do texto "Risco sistémico", publicado no blog "artigo 58")

 

 

Quando aqui há tempos comentei, no texto "Mariquinha, vem comigo pr'Angola", o  veto de Luís Filipe Vieira a um torneio a realizar em Angola, supostamente promovido pelo agora na berra, Ministro Miguel Relvas, fi-lo em grande parte, porque estranhei a intermediação ministerial deste no processo.

 

Tendo em conta duas constatações. As boas relações que o clube que preside mantém (mantinha?) com aquele estado, e que até terão concorrido para que participasse, há duas épocas atrás, nos festejos do 35.º aniversário da sua independência.

 

E, além disso, o desprovido de sentido que me pareceu vetar um torneio, como retaliação à comichão que ao dito indivíduo havia provocado, o facto de aquele governante ter jantado com Pinto da Costa, Joaquim Oliveira, Judite de Sousa e Fernando Seara, após a vitória do FC Porto no Estádio da Lucy, selada com o golo do Maicon, naquilo que, aos seus olhos, teria configurado uma comemoração ostensiva, e pelos vistos, ofensiva.

 

Coloquei então a hipótese de se tratar de “uma maneira de procurar chegar a uma situação artificial de quid pro quo com a actual liderança política da nação”.

 

Pois bem, admito que as tricas da política, apesar de bem mais importantes para a vida de todos nós, me interessam bem menos que as futebolísticas, portanto, por vezes denoto lacunas bastante óbvias a esse nível.

 

Quando fiz aquela suposição, não havia ainda lido o texto acima transcrito. Mas, como não estou aqui para lançar lebres ou atoardas sobre o que quer que seja, parece-me que será de bom tom penitenciar-me, e acrescentar mais alguns dados àquilo que então disse.

 

O conteúdo do texto, bate certo com a argumentação que ouvi uma noite destas a José Luis Arnaut, em debate com Luís Fazenda, a propósito também do caso das secretas.

 

Dizia, inocentemente, o presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Futebol, que ao mexer em dossiers problemáticos como a reforma autárquica e na privatização da RTP, o coitado do Relvas terá cutucado as feras com paus demasiadamente curtos, e estará por isso, a levar o troco.

 

O problema, parece-me a mim, não será tanto o “deixar o partido à mercê da linha do Balsemão”, mas antes o desinteresse total que este terá em ver a RTP privatizada, e dividir com mais um operador privado, o já de si curto mercado publicitário, ou deixar a televisão do estado ir parar às mãos da concorrência.

 

Falando-se em Angola, necessariamente terá de se falar em Isabel dos Santos, que ainda recentemente reforçou as suas posições accionistas na Zon e no BPI.

 

 

 

Como se pode ler no artigo, em termos de programação, as grandes apostas da Zon, para conquistar audiências em terras angolanas, serão a SporTV e os canais TV Cine.

 

A SporTV, como é por demais sabido, é detida pela Controlinveste, de Joaquim Oliveira, e pela Zon. Assim sendo, o convívio entre Miguel Relvas e Joaquim Oliveira, parece fazer sentido, independentemente da sua associação a quaisquer festejos que estivessem em curso.

 

Por outro lado, para além de reforçar a sua posição no BPI, de que Américo Amorim foi fundador, e detentor de capital, até há uns anos atrás, Isabel dos Santos é, em parceria com o homem mais rico de Portugal, a feliz proprietária do BIC, a quem caiu no regaço o (des)nacionalizado BPN. A este somam-se outros negócios em conjunto, nomeadamente na área da energia e do petróleo.

 

 

 

 

 

Américo Amorim é membro do Conselho Consultivo do FC Porto. É demasiado rebuscado para chegarmos a algo que justifique a presença de Pinto da Costa no dito repasto.

 

Acontece que o FC Porto é também ele, proprietário de um canal de televisão. Gravitando a temática em torno do meio audiovisual, será por aqui o caminho? Quente ou frio?

 

Ficavam então, apenas explicar as presenças de Fernando Seara e Judite de Sousa. Bem, esta última, para além de portista, trabalha no ramo. Será suficiente? Não parece.

 

E Fernando Seara? Deixava-se arrastar para um jantar destes, apenas para acompanhar a esposa?

 

É um facto que lá para os lados do Estádio da Lucy, vão aparecendo novas vozes descontentes com o presidente e com o treinador.

 

José Veiga e António Figueiredo foram os primeiros. Agora é Bruno Carvalho, o concorrente derrotado no último plebiscito, que também tornou a assomar-se, comparando a situação actual do seu clube à Coreia do Norte e à Venezuela. Convenhamos, num clube que se arvora em paladino da democracia, até nos tempos em que cá no burgo o regime era ditatorial, fica mal!

 

Querem ver que o Fernando Seara ficou ressentido por ter visto hipotecadas as suas hipóteses de ir até ao fim com a sua candidatura à Liga e/ou à Federação Portuguesa de Futebol, vendo-se relegado da corrida pelos apoios ao “portista” Fernando Gomes e a Carlos Marta?

 

Quererá Fernando Seara constituir-se como uma “quarta via”? Logo ele, que tem estado com todos os presidentes de Damásio a Vieira, passando por Vale e Azevedo?

 

O que é certo é que, neste momento e num futuro próximo, pelo menos até ao acto eleitoral, o destino daquele clube e a sua capacidade para enfrentar a próxima temporada, está muito mais nas mãos de Joaquim Oliveira, do que o contrário.

 

Sem prosseguir a estratégia usual de antecipação de receitas, garantida pelos fundos da Olivedesportos e sem fundo de estrelas que lhes valha, as contratações, a havê-las, terão de ter como contrapartida vendas. Com Witsel reservado para o Real Madrid, restam o Gaitán, e como hipóteses mais remotas, o Rodrigo ou o Nélson Oliveira.

 

Ainda que se façam rogados, o contrato com a SporTV, é a única bóia de salvação que se avista. Única, exceptuando um qualquer milagre, claro está.

 

O que é que isto nos interessa? Como se costuma dizer no Brasil, “pimenta no cú dos outros é refresco”!

 

Vamos aguardar serenamente, com ou sem o Sereno. Vai-se a ver, ainda vamos ter o Porto Canal a internacionalizar-se para Angola.

 

Fica assim feita, em jeito de mea culpa, e para que a desinformação não comece em casa, a rectificação devida àquilo que disse antes.

 

Afinal de contas, nestas coisas que envolvem Angola e nos tempos que correm, o Ministro das secretas e dos aventais, é capaz de ter um papel bem mais relevante que quem boicotou o torneio.


Nota: Para quem tenha interesse no assunto, mais informações sobre Isabel dos Santos.

Mariquinha, vem comigo pr’ Angola

16
Mai12

Conquistado mais um título de campeão nacional pelo FC Porto, como é hábito, seguiu-se o também habitual desfiar do novelo das entrevistas às carpideiras do costume.

 

Os objectivos de todo este folclore são como sempre, bem transparentes. A única novidade é que, desta vez, vêm em dose dupla, não se ficando pela costumeira singeleza da desculpa esfarrapada para o insucesso.

 

O mote, deu-o António Carraça:

 

 

 

 

O director de comunicação juntou-lhe o "tributo":

 

 

 

Depois vieram os testemunhos do Artur Moraes, e ainda no início desta semana, o do Rodrigo.

 

Nada de muito extraordinário. É como diz o Miguel Sousa Tavares:

 

“Compreendo, porém, que quem tem por profissão ser porta-voz dos outros (…) tenha dificuldade em entender que se possa ser uma voz sem dono”

 

A este relambório recorrente a cada derrota, acresceu um duplo objectivo, contestação dos sócios oblige: a defesa do seu mais que tudo mestre da táctica.

 

Primeiro, em autodefesa, através do próprio dito cujo, do topo do seu topo, e a seguir relembrando o quão profícuo tem sido no amealhar de trocados. 28 milhões deles, ao que parece.

 

O quanto gastou para aí chegar é que não se diz, mas isso também não interessa nada, como diria a Teresa Guilherme.

 

Bem como, também não interessou para nada, o facto de tudo isto ter sido aparentemente cozinhado, - outra vez! Chiça, que não são nada originais! - num almoço no Tivoli, que terá contado com a presença de altos dignatários do papel para forrar fundos de gaiolas de periquitos, que deu à estampa as entrevistas em causa.

 

Aparentemente, o que também não interessou pevide, perante um tão extenso relambório de entrevistas louvaminhentas, foi uma notícia, de terça-feira da semana passada, que não passou de um mero recortezito na capa desse ex-libris da comunicação social, que é o Correio da Manhã:

 

 

"Filipe Vieira veta torneio em Angola"

 

Reza a notícia que, “[o] (…)ica desistiu de participar num torneio em Angola, em que também estavam previstos o FC Porto e Sporting”.

 

E porquê? Porque, o seu presidente terá ficado «"muito incomodado" com o facto de o promotor do torneio, o ministro Miguel Relvas, ter "comemorado" com Pinto da Costa e Joaquim Oliveira a derrota (2-3) do Benfica diante do FC Porto, num jantar em que também esteve Fernando Seara e a mulher, Judite de Sousa, que se realizou a 3 de Março, um dia depois do jogo disputado na Luz (2 de Março)».

 

«(…) Vieira "não compreendeu" como é que o ministro (adepto do Sporting), Fernando Seara (sócio do Benfica) e o detentor dos direitos televisivos dos jogos do Benfica se tivessem juntado a Pinto da Costa após uma partida que o FC Porto ganhou com um golo em fora-de-jogo (Maicon, no 3-2)».

 

Em defesa do ministro, “(…) fonte próxima de Miguel Relvas assegurou ao CM que o jantar de 3 de Março foi o único em que o ministro esteve com Pinto da Costa e frisou que tal já aconteceu com outros dirigentes desportivos, caso de Luís Filipe Vieira, com quem já jantou três vezes”.

 

Perguntarão: “Qual é a relevância disto?”

 

Provavelmente, nenhuma. Especialmente vindo de um clube eternamente virado para o seu próprio umbigo, que, qual Rei Sol, proclama “nós somos o País”, e que é capaz de incentivar os seus apaniguados a boicotarem os jogos realizados fora de portas, recusando, consequentemente, de moto proprio, o apoio que queiram tributar à sua equipa. Única e exclusivamente a bem do seu conforto espiritual, e não, claro está, para que outros não aufiram da receita proveniente da sua presença.

 

Mas, reparem, que é a parte interessante, porque será que é em Maio, depois de decidido o título, que o indivíduo em questão, vem “vetar um torneio”, que se vai realizar no final do mesmo mês, por causa de um jantar, que terá decorrido dois meses antes? Compreensão lenta?

 

E o motivo para tal decisão, senhores, reparem no motivo:

 

«(…) Vieira "não compreendeu" como é que o ministro (adepto do Sporting), Fernando Seara (sócio do Benfica) e o detentor dos direitos televisivos dos jogos do Benfica se tivessem juntado a Pinto da Costa após uma partida que o FC Porto ganhou com um golo em fora-de-jogo (Maicon, no 3-2)»

 

Ou seja, a fazer relembrar o episódio do DVD com os pretensos erros do Olegário Benquerença, que o Secretário de Estado do Desporto, cuja demissão haveria de fazer cair o governo de Santana Lopes, afiançou que, se tivesse recebido, atiraria pela janela.

 

Porquê esta tentativa de puxar para a esfera do futebol a componente política?

 

As ligações do clube em causa ao anterior Governo, designadamente, por via do seu presidente, foram bem evidentes. O apoio do presidente encarnado ao PS foi público, assim como a inclusão na Comissão de Honra da sua recandidatura, do, à altura, Ministro da tutela da polícia e das secretas.

 

Para além deste, também o presidente da Assembleia Geral, Luís Nazaré, é um conhecido socialista, e João Correia, ex-Secretário de Estado da Justiça do Governo PS, foi um dos patronos do processo que visou excluir o FC Porto da Champions.

 

Com estes, convivem depois alegremente Ruis Gomes da Silva e Fernandos Searas (PSD), Sílvios Cervans (CDS), e outros, numa amálgama multi-representativa, que sempre garante algum suporte, para onde quer que as coisas, politicamente caiam.

 

Convirá também não esquecer que, se o clube é aquilo que é hoje, muito o deve, sem sombra de dúvida, ao PSD. Parece-me que é ainda caso raro, senão único, no regime quase democrático em que vivemos, um presidente de um clube incentivar os seus consócios ao voto num determinado partido político, como fez Manuel Vilarinho, afirmando que o seu líder, no caso Durão Barroso, era o homem que ia ajudar esse clube.

 

No entanto, o seu actual presidente, em dada altura, marcou uma posição, e essa posição não é, na presente conjuntura, a mais politicamente correcta.

 

Assim sendo, será tão descabida como parece a reunião de um tão improvável grupo de convivas?

 

O ministro Miguel Relvas está em tudo e em todo o lado. Desde questões de aventais até secretas, é omnipresente, portanto, é sem grande estranheza que se vê a sua presença.

 

É o titular da pasta da comunicação social, logo, a sua participação conjunta com Joaquim Oliveira, faz sentido.

 

Este último, o "amigo Oliveira" de Armando Vara e José Sócrates, em fase de ajustamento da sua rota face à conjuntura actual, seria, pode-se admitir, um participante natural em qualquer jantar temático sobre futebol.

 

Agora, Fernando Seara, o que é que faria Fernando Seara num repasto desta natureza? Alguém acredita que o putativo candidato benfiquista à presidência da Liga, da Federação, ou do que quer que seja, tomasse parte num jantar onde se festejaria a vitória do FC Porto sobre o seu clube?

 

Logo o homem que salvou o clube da desgraça mais que merecida? É estranho. E é mais estranho ainda, numa agremiação em que as coisas se fazem tradicionalmente, por outro lado.

 

Por isso, não me venham com histórias, apesar de o ministro ser sportinguista, o único clube que não esteve representado, a título oficial, naquela reunião, foi o Sporting.

 

Sendo assim, porquê esta fantochada do veto ao torneio?

 

Só vejo duas hipóteses. Ou é pura birra, típica num choninhas, como o é Luis Filipe Vieira, ou, em alternativa, é uma maneira de procurar chegar a uma situação artificial de quid pro quo com a actual liderança política da nação.

 

Como se recordarão, na temporada transacta, a equipa que foi copiosamente derrotada no Dragão, por cincazero, foi lamber as feridas desse amargo desaire, precisamente para Angola.

 

Festejava-se então o 35.º aniversário da independência daquele país, e o convidado de honra não foi outro, senão o clube que agora veta um torneio a realizar-se no mesmo país.

 

Naquela altura, que se saiba, não foi necessária qualquer intermediação ministerial: o bom relacionamento institucional entre as partes foi mais que suficiente. O que é se alterou entretanto? Terão destratado o Mantorras?

 

Sou quase capaz de apostar que, tal como em 2010, a presença de papoilas em terras de angola, vai ser tida como imprescindível. Precisamente pelos argumentos habituais: é o clube com mais adeptos, é o mais grande do Mundo, eles são Angola, etc., etc..

 

Assim sendo, é muito natural que o Governo angolano, para assegurar a dignidade competitiva do torneio, a alegria do povo, e em simultâneo, a presença do seu mais desejado convidado de honra, pressione, ainda que ao de leve, também não é preciso mais, o seu congénere luso.

 

O qual, por sua vez, de chapeuzinho na mão, através do Ministro Relvas, ou qualquer outro, lá irá rogar encarecidamente ao presidente incomodado, por favor, que se digne a mandar a sua equipa ir apanhar calor para África.

 

É claro que este, muito contrariado, assentirá, e o Governo ficará em eterna dívida, por dessa forma, poder aquiescer aos supremos e muito legítimos anseios angolanos.

 

E daí para a frente logo se vê. O que é certo é que os tempos que vivemos, são de crise, e vai-se a ver, o futebol ainda poderá novamente voltar a ser, como disse Ricardo Serrado, em relação à trilogia “Futebol, Fátima e Fado”, no regime salazarista, «o "refúgio" de um povo angustiado».  

 

Se não for assim,…é bom sinal!