Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

O ovo e a galinha, o estrutural e o estruturante

 

A propósito do texto que escrevi, "Direitos às avessas", houve um comentário da autoria de Pedro Pereira, que despertou a minha atenção.

 

Sendo o assunto de que se falava a questão dos direitos televisivos, dizia então aquele comentador que sim, que concordava que os clubes mais pequenos deveriam ter direito a mais verbas, mas que “para isso teria de haver uma reestruturação dos moldes competitivos das 1ª e 2ª Ligas”.

 

Para tanto, preconizava entre outras medidas, que “Menos equipas, melhoraria a qualidade do produto, logo existiria uma maior capacidade de gerar mais valias, ou seja, mais receita”.

 

Começando por notar que se trata, claramente, uma opinião contra a actual corrente na Liga de clubes, mas que partilho, fiquei a pensar na questão da “reestruturação dos moldes competitivos das 1ª e 2ª Ligas”.

 

 

Muito francamente, parece-me que que estamos perante uma situação como a história do ovo e da galinha. Ficar à espera de uma hipotética reestruturação dos moldes competitivos das ligas profissionais, será meio caminho andado para que tudo permaneça na mesma.

 

A questão dos moldes competitivos, assim como a da invasão de jogadores estrangeiros, até nos escalões de formação, é estrutural do nosso futebol.

 

Sem dúvida que a sua reformulação terá forçosamente de passar, como diz no comentário, por “exigências apertadas de ordem financeira para que as equipas tenham de fato, capacidade para cumprir os compromissos assumidos com os seus atletas e demais funcionários, fornecedores e com o Estado”.

 

Ora, o que ainda esta semana se viu foi que em Guimarães, não houve dinheiro, não houve treino, e em Leiria houve mais uma baixa no plantel. Ou seja, até os clubes que neste momento disputam a Liga principal, não se revelam capazes de cumprir critérios mínimos de rigor financeiro.

 

Neste contexto, uma redução e um apertar das exigências a este nível parece razoável. Porém, não nos podemos esquecer de um pequeno pormenor.

 

Vivemos num País onde um dos principais clubes, está onde está e como está, porque beneficiou de algo que mais nenhum outro teve ao seu alcance. E não estou a falar de benesses autárquicas ou de financiamentos encapotados via empresas municipais, que esses, de uma forma ou outra, terão sido mais ou menos generalizados.

 

Falo de algo que, por exemplo, o clube da minha terra, coitado, não teve oportunidade de usufruir, e quase que desapareceu da face da Terra: um flagrantíssimo perdão fiscal, e a aceitação como garantia de acções, cujo valor ascendia a pouco mais de zero.

 

Vamos criar critérios rigorosos de solvabilidade financeira que fomentem uma sã concorrência entre todos os clubes? E não correremos, digo eu, o risco de deixar ir o bebé com a água do banho?

 

Este tipo de regras enquadra-se naquele conjunto em que só pensamos, quando vem alguém de fora forçar.

 

O monsieur Platini fala em impor regras impopulares de fairplay financeiro. Pode ser que sim. O problema é que o senhor Platini é eleito, logo fará aquilo que quem vota em si mandar.

 

Agora se os nossos amigos germânicos, que já andam picados com o Real Madrid, calham a dedicar uma especial atenção a este assunto, a coisa pode começar a piar mais fino. Aí sim, ainda haverá esperança a esse nível.

 

Quanto à questão dos jovens nacionais e estrangeiros, é sem dúvida inadmissível aquilo que se vai vendo nos dias que correm. Contudo, aqui a questão ainda me parece mais estrutural, indo para além da mera componente desportiva e entroncando até na sociológica.

 

Para lá das questões inerentes aos negócios e às comissões dos empresários, há a questão demográfica. Se se fecham escolas, porque cada vez há menos miúdos, é perfeitamente natural que, cada vez menos joguem futebol, ou que o façam de forma espontânea.

 

Apesar de começarem a frequentar em tenra idade as escolas de futebol dos famosos ou dos clubes, a concorrência com outros tipos de actividades é enorme. E o futebol, antes um veículo até de ascensão social, deixou de o ser.

 

Desde sempre que grandes futebolistas nasceram em bolsas de desfavorecimento social. E é isso que, a evolução da nossa própria sociedade, foi pondo em causa, ao passo que para os jovens oriundos de África ou da América do Sul, ainda se poderá prefigurar um Eldorado.

 

Nesse aspecto, a austeridade e a troika, ainda são capazes de prestar um serviço considerável ao futebol nacional. Quando não houver dinheiro para escolas de futebol, pranchas disto e daquilo, playstations, wiis, restam as bolas.

 

Tudo isto, que é de La Palisse, para exemplificar que a questão da reestruturação dos moldes competitivos, nas suas várias vertentes, tem um cariz estrutural.

 

A questão dos direitos televisivos, poderá eventualmente ser estruturante, para atingir este desiderato. O dinheiro a entrar nos clubes mais pequenos, por via dos direitos televisivos, poderá dar um contributo na observância dos requisitos financeiros que venham a ser estabelecidos.

 

Agora, quanto a mim, ainda que as duas coisas possam relacionar-se, a (re)negociação dos direitos televisivos não tem necessariamente de estar, nem deverá estar dependente, de uma mudança estrutural, sob pena de cairmos no costumeiro imobilismo.

 

O deixar tudo na mesma, enquanto não se mexe, não me parece razoável, e, lá está, vai claramente beneficiar uns, em desfavor de outros.

 

Uma coisa é, ao contrário do que parece pretender a Liga de clubes, vá-se lá saber porquê, rasgar os contratos existentes, à la Vale e Azevedo. Outra bem diferente, é cumprir o que está assinado ou reformulá-lo a contento de todas as partes, e então sim, reestruturar o que houver a reestruturar.

 

Dito isto, continuo a achar que os direitos televisivos, na ausência de mais do que um concorrente interessado na sua aquisição, deveriam ser sujeitos a uma negociação colectiva, sendo os clubes representados pela entidade que os superintende – a Liga de clubes.

 

Por outro lado, preocupa-me que a Liga de clubes “pareça” interessada em prosseguir este caminho, apenas como parte integrante de uma estratégia negocial particular de alguns, a quem, no fundo, o que interessa fundamentalmente, é a manutenção do status quo.

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