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Azul ao Sul

Algarvio e portista E depois? O mar também é azul...

Azul ao Sul

Algarvio e portista E depois? O mar também é azul...

Porque perguntar, em princípio, não ofende…

10
Set12

“É público que o FC Porto conseguiu encaixar cerca de 450 milhões de euros, com as suas melhores 20 transferências (para além disso, só o FC Porto conseguiria encaixar cerca de 10 milhões de euros, em 2003 (!), pela venda de Postiga ao Tottenham!). Isso contribuiu, e muito justamente, para afectar positivamente à imagem do clube do Dragão uma aura de intocável capacidade de negociação. Agora que os contornos da transferência de Hulk estão a ser discutidos na praça pública (o que vai fazer a CMVM perante declarações não coincidentes produzidas pelas partes interessadas?!...) e sobretudo perante a inevitável decepção em torno dos números, muito distantes dos 100 milhões, talvez estejamos perante a queda de um mito: com efeito, o FC Porto, ao longo dos tempos, vendeu muito e bem.


A verdade é que, não obstante essas vendas e o produto das receitas de qualificações sucessivas para a Champions, o passivo anda na ordem dos 200 milhões de euros. Nestas condições, podemos falar em boa gestão? Afinal a ‘boa gestão’, que vem sendo dada como um dado adquirido na opinião publicada, não será apenas um ‘módulo de propaganda’ e dar como certo algo que não está plasmado nas contas? Não teria o FC Porto a obrigação, num quadro de encaixes tão significativos, e com esta capacidade de realizar transferências de indiscutível impacto financeiro, de apresentar contas equilibradas? Com tantas receitas, não estará o FC Porto a gastar mais do que pode? Sem oposição externa e interna, este é um assunto condenado a não dar discussão”

 

“Ouvi muitas coisas nestes últimos meses sobre a situação financeira do nosso clube. Como não sei de ciência certa não me vou alargar. Confesso apenas uma incompreensão e deixo um desejo. O Porto só nos dois últimos anos fez vendas de mais de cem milhões de euros. Como é possível estar a viver dificuldades? O meu desejo é que não se desbaratem estes 40 ou 50 milhões mais os do Guarin e do Pereira. Como podem perceber, não peço muito”.

 

Vendo as coisas pelo prisma utilizado nestes três parágrafos, o concurso de medição de pilinhas sobre os valores das transferências do Hulk e do Witsel, a discussão sobre quem arcou ou vai arcar com a solidariedade e os empresários, ou sobre quem esperou por quem para dar o(s) negócio(s) por consumado(s), ficam um bocado em perspectiva.

 

É a velha questão da árvore e da floresta.

 

Os dois primeiros parágrafos são da autoria daquele, que por esta altura já devem ter percebido, é um dos meus amores de perdição, Rui Santos.

 

Há que dar-lhe por isso um desconto. Nem chega bem a ser uma ejaculação precoce. Assemelha-se mais a um daqueles desejos formulados quando se apagam as velas todas do bolo de aniversário.

 

Não é por o Rui o querer ou desejar, que estaremos como com propriedade, diz à cautela, “talvez”, e sublinha-se, aviva-se e põe-se em itálico, o talvez, “perante a queda de um mito”. Resta-lhe pois engolir em seco, e seguir para diante, escrevendo textos como aqueles que habitualmente nos dedica.

 

O último parágrafo é para mim mais preocupante. Pelo conteúdo, e por ser um portista acima de qualquer suspeita, Pedro Marques Lopes, quem partilha quase estereofonicamente a preocupação do Rui Santos.

 

 

 

 

Obviamente que as motivações e as apreensões de um e outro, são inquestionável e necessariamente diferentes, mas a questão fulcral é a mesma.

 

Como muito bem escreve o Jorge, a filosofia de compra/valoriza/vende que tem sido pivotal na capacidade negocial no mercado de transferências e na manutenção de plantéis competitivos”.

  

Pivotal, de acordo. Porém, será mesmo imprescindível? Não em termos abstractos, mas tomando como exemplo este caso concreto do Hulk, haveria mesmo a necessidade imperiosa de vender, agora e pelo preço a que se realizou a transação, seja ele qual fôr?

 

Tem-nos sido dito que sim. A maior parte dos sócios e adeptos acredita que sim. Muito sinceramente, também me parece o mesmo. Mas afinal, qual o impacto da transferência do Hulk nas contas da nossa SAD?

 

Desta vez, o argumento mais abundantemente empregue para justificar o estado de necessidade, foi o pagamento do empréstimo obrigacionista de 18 milhões, que vence até ao final no corrente ano.

 

Será isso? Se foi por 18 milhões, então as vendas do Álvaro Pereira, do Guarín e do Belluschi, resolviam a questão, e ainda sobravam uns trocados.

 

Indo ao Relatório de Contas Consolidado do 3.º trimestre – 2011/2012 (pág. 14), retiramos que o passivo da SAD ascendia, àquela data, a 214.171.035 euros, dos quais € 167.533.480, classificados no passivo corrente.

 

Por seu turno, o activo corrente é apenas de € 52.683.659. Portanto, sejam 40 milhões, 31 milhões, ou qualquer outro valor intermédio ou abaixo daqueles dois, o desequilíbrio era de tal sorte, que não é a venda do Hulk que vai equilibrar as contas.

 

Que ajuda, é inquestionável, mas daí até se concluir, neste momento e pelo montante que seja, pela sua imprescindibilidade, é outra história. É um daqueles casos que alivia, mas não cura.

 

Se estivéssemos a fazer um puzzle, a parcela onde aquele montante mais facilmente encaixaria seria nos custos com pessoal – 31 milhões e meio de euros no trimestre.

 

É bem certo que, a ser verdade o que se diz quanto à duplicação do ordenado do jogador, a partir de Setembro, a poupança andará por volta dos 9 milhões de euros. Ou seja, feitas as contas, o que o Zenit despendeu pagará qualquer coisa como um trimestre de encargos com salários e afins. Ficam a faltar outros três.

 

Para quem não gosta de números e contas, vamos tentar analisar a coisa por outra via.

 

Peguemos nas transferências mais vultuosas de há três épocas a esta parte. Comecemos pelas do Bruno Alves e do Raúl Meireles. Sem olhar para as somas envolvidas, era por demais evidente que ambos estavam por cá descontentes.

 

O papá do Bruno Alves não se calava, e o Raúl Meireles, que não ia além dos 70 minutos por jogo, foi para Inglaterra correr que nem um galgo atrás do coelho.

 

A seguir veio a do Falcao. Segundo reza o relatório de contas, a sua transferência deu azo a uma mais-valia de 20.170.000 €. Independentemente disso, todos sabemos que se tratou de uma shotgun sale, tendo em conta a ambição do jogador em mudar de ares.

 

Ainda assim, mesmo partindo de uma posição negocial menos vantajosa, a sua saída poderá vir a revelar-se mais rentável que a do Hulk.

 

Tanto quanto consta, não terá sido por vontade expressa deste último que se operou a mudança para Sampetesburgo. O próprio afirmou que não estava à espera de ser transferido, antes contava ficar entre nós e festejar o tricampeonato

 

Nesse particular, esta movimetação teve mais similaridade com a saída do Lucho Gonzalez, que com qualquer uma das atrás mencionadas.

 

 

Assim sendo, volto à questão fundamental: a venda do Hulk, neste momento e por qualquer que seja o valor, era efectivamente imprescindível ou vem resolver definitivamente alguma coisa, do ponto de vista financeiro?

 

Desportivamente, o timing da sua venda, quando o mercado português se encontrava encerrado, não permitiu acrescentar ao plantel um substituto de que se diga poder preencher directamente a sua lacuna.

 

Resta a prata da casa. Era essa a intenção? A sua saída (ou a do João Moutinho, por hipótese), sendo inevitável e impreterível, dentro daquela que é a lógica de gestão do clube, foi atempadamente acautelada pelas entradas do Iturbe, do Atsu ou do Kelvin? É isso? Ou serão o James ou o Varela que o vão substituir?

 

Pela parte que me toca admito que fiquei surpreendido com a saída do Hulk, e confesso a minha frustração. Sendo certo que era algo que mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer, sempre acreditei que enquanto fosse possível se faria por ir protelando o inevitável.

 

Foi como regressar aos tempos da escola e adiar o início do estudo para o exame de Estatística, “só mais este jogo! Estou a ganhar ao Torquay, e a seguir só falta o Scunthorpe!” – meu rico Football Manager! Bons tempos -, ou o pendurar a porcaria do candeeiro da sala de jantar, que depois de demorar nove anos para ser comprado, convinha que ficasse pendurado vinte minutos antes de chegarem os convidados para o jantar.

 

Enfim, a vida é mesmo assim, e faz-se por ela. A que preço? Logo se vê.

As aventuras de um Gulliver entre os liliputianos (ou "Por mais 25 de Abril que venham...")

24
Abr12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

”No país que odeia vencedores"

 

por PEDRO MARQUES LOPES

 

Jorge Nuno Pinto da Costa completou na última terça-feira trinta anos como presidente da mais bem sucedida instituição portuguesa da nossa história recente: o Futebol Clube do Porto.

 

Em nenhum sector de actividade uma organização conseguiu sequer aproximar-se do desempenho nacional e internacional do clube nortenho. Até o mais distraído dos cidadãos não ignora as sistemáticas vitórias do Futebol Clube do Porto no plano interno em todos os desportos profissionais ou semiprofissionais e os êxitos retumbantes a nível internacional. Desde 1964, o único clube de futebol português a ganhar provas europeias e mundiais foi o FC Porto. Ganhou sete, batendo-se de igual para igual com clubes representativos de cidades e países com muitíssimas mais capacidades financeiras e com uma capacidade de recrutamento de jogadores e treinadores quase ilimitada - não vale a pena perder tempo referindo os campeonatos e taças dentro de fronteiras, o espaço nesta página é demasiado pequeno.

 

A pergunta impõe-se: que empresa portuguesa, que instituição, foi a melhor da Europa, no seu ramo de actividade, por duas vezes ou, pelo menos, chegou perto disso nos últimos trinta anos? Pois...

 

Os sócios e adeptos do FC Porto, o desporto português e a comunidade portuguesa devem todos esses feitos a uma pessoa: Pinto da Costa. Claro que nenhum homem sozinho seria capaz de tão espantosa obra, mas foi, de facto, ele o grande motor, o grande líder duma das mais extraordinárias histórias de sucesso duma organização portuguesa.

 

Pinto da Costa é, sem sombra de dúvida, o mais brilhante gestor português e, no seu sector, um dos melhores do mundo, senão o melhor (é o presidente dum clube, no mundo inteiro, com mais títulos ganhos). Em qualquer país que não estivesse minado pela inveja, que não vivesse obcecado pela intriga e não odiasse vencedores, o presidente do FC do Porto seria um autêntico herói nacional. O exemplo de alguém que com parcos recursos, liderando uma organização originária duma região pobre da Europa, conseguiu, à custa de trabalho, capacidade de organização e uma dedicação sem limites transformar um clube como muitos outros num dos maiores do mundo seria estudado, promovido, glorificado. Não é em vão que por esse mundo fora o FC Porto e o seu presidente são homenageados e vistos como autênticos fenómenos. Mas, em Portugal, quanto maior for o sucesso, maior será o ódio, maior será o desprezo, e, claro está, Pinto da Costa é o alvo de toda a desconsideração, de toda a infâmia, de toda a calúnia.

 

Desenganem-se os que acreditam que a razão para tanta falta de respeito pela obra realizada se deve exclusivamente à paixão que rodeia as coisas do futebol, ao facto de um clube com menos adeptos que os seus rivais lhes ganhar sistematicamente, às tomadas de posição muitas vezes duras do presidente ou ao discurso exageradamente regionalista. Terão essas razões algum peso, mas estão longe de ser as fundamentais. Pinto da Costa é invejado e odiado porque ganha. E ganha porque sabe mais do seu ofício, porque trabalha mais, porque sabe organizar melhor a sua empresa. Mas isso no nosso país pouco conta. Toda a gente sabe que se alguém é rico é porque roubou, se alguém tem um bom contrato é porque tem cunhas. Porque seria diferente com Pinto da Costa?

 

O sucesso em Portugal nunca serve de exemplo, nunca leva as pessoas a quererem fazer melhor, a trabalharem mais, a serem mais empenhadas.

 

Como dizia um meu bom amigo benfiquista, em Portugal só no futebol se fazem declarações de interesses. Sou sócio do FC Porto. Estarei eternamente agradecido a quem me proporcionou tantas alegrias e me fez quase arrebentar de orgulho por ser portista e português. Mas isso, para o tema, pouco importa. É quase patético ter de anunciar a minha condição de adepto dum clube apenas porque se reconhece a obra de alguém ímpar na nossa comunidade, de alguém que honrou o nome da cidade do Porto e de Portugal.

 

Muito obrigado, sr. Pinto da Costa.