RAP – O Gato que engoliu um sapo
“Jesus não interessa nem ao menino Jesus
Há duas semanas, o Braga perdeu um jogo com um golo do adversário em fora-de-jogo e ficou um penalty por marcar a favor dos bracarenses. Jorge Jesus disse que foi a maior roubalheira a que assistiu em 20 anos de carreira. Ontem, o Braga perdeu um jogo com um golo fora-de-jogo do adversário e ficaram dois penalties por assinalar a favor dos bracarenses. Jorge Jesus disse que preferia comentar o jogo. A grande diferença entre os dois jogos, como o leitor já percebeu, é o adversário. Um tem três ou quatro jogadores emprestados ao Braga; o outro não tem nenhum. O respeitinho é muito bonito. Em Novembro, vários jornais adiantaram que Jorge Jesus poderia render Jesualdo no Porto; nenhum jornal noticiou (e, se Deus quiser, não há-de noticiar) que Jorge Jesus poderia render Quique Flores no Benfica. Talvez isso ajude a explicar que, em certas conferências de imprensa Jesus diga o que quer e noutras dê a sensação de estar numa entrevista de emprego. O mercado de trabalho está difícil e não é boa ideia irritar os patrões, actuais ou futuros.”
(RAP, 25 de Janeiro de 2009)
Numa altura em que os seus discípulos começam a por em causa se será de facto um profeta, ou o vendedor de banha da cobra, que efectivamente é, há alguns que desde bem cedo, tiveram a percepção de com quem se estavam a meter. É o caso do Ricardo Araújo Pereira – vulgo, o RAP.
Como não tenho por hábito ler o papel para forrar gaiolas de periquitos, onde são impressas estas crónicas, nem tenho sequer paciência ou vontade de voltar ao buraco esconso de onde desenterrei esta, não faço a menor ideia se o autor alguma vez alterou publicamente a sua posição, se retratou ou fez de alguma forma um qualquer tipo de mea culpa, em relação àquilo que disse acerca do seu actual treinador.
No entanto, tendo em conta a sua postura de paladino guardião da coerência, presumo que o terá feito, e estaria no seu inteiro direito em fazê-lo, porque, como disse um dia Mário Soares: “Só os burros é que não mudam”, e o RAP, burro é que não é.
Até porque não é difícil fazê-lo. É só dizer: “Que se f… a coerência!”, como também já o disse da imparcialidade, e está feito.
Se o fez, então terá certamente celebrado alegremente a conquista da Liga Sagres 2009-2010. Caso contrário, se permaneceu fiel à sua dama da coerência, e prefiro acreditar que sim, até porque senão o título acima não faz qualquer sentido, que grande sapo terá engolido na época passada.
Restar-lhe-á, porém, uma consolação. Esta época, em nome da sua sempre celebrada coerência, pode sempre recuperar esta crónica, e unir-se ao coro dos que, daqui a muito pouco tempo vão crucificar outro Jesus.
Ou então, lá terá coerentemente de arrepiar caminho, e encetar um mea culpa do mea culpa, retratando-se da retratação. É aborrecido, e torna-se maçador para quem o lê.
Haja coerência, e da boa, daquela que o RAP tanto reclama aos seus colegas cronistas azuis e brancos!
Nota: Entretanto, é hoje notícia que os «"Gatos” põem fim a crónicas desportivas” na sequência da “guerra com Miguel Sousa Tavares». É claro que as crónicas hão-de com certeza continuar, noutro sítio qualquer. Um filão deste quilate merece ser esmiuçado à saciedade.
É pena. Hoje ficamos todos mais pobres. Perdemos um pouco de coerência…

